Aconteceu na Porcina
         Um
causo de arrepiar os cabelos, curar porre, matar velho de susto, ocorreu na
trilha de terra que liga as ruínas da Porcina à subida do morro. Ditinho
Meia-colher, o ajudante do famoso pedreiro Oscar Massafina, resolveu passarinhar;
comprou um bodoque num armazém no Porto do Ribeira, e numa tarde ensolarada foi
caçar sabiás no alto da montanha.
         Contam
as nossas lendas urbanas que no início do século passado, caçar passarinhos com
estilingue era um dos esportes preferidos da nobreza local; até mesmo as
donzelas davam suas bodocadas, e participavam do tiro ao alvo. Foi por esta
época que o nome Álvaro quase desapareceu, pois os menos estudados em vez de
dizer “tiro ao alvo”, diziam “tiro ao álvaro”, e todos os Álvaro da cidade
mudaram para Santos por medo de levarem um tiro.
         Ditinho
Meia-colher, pelo que se sabe, foi a única pessoa a falar com o coronel
Astrogildo depois que ele faleceu, aconteceu na subida do morro, e no dia em
que resolveu passarinhar. Ditinho estava testando a atiradeira nova, e por
descuido acertou na estranha figura que apressada descia a encosta do morro;
era o famigerado coronel Astrogildo.
         Gildo
nasceu sem eiras e beiras, pobre, pobre, pobre, de maré, maré, maré. Na
infância exerceu a profissão de engraxate, entregador de comprar, lenhador, e
carregador de navios no Porto Grande; juntou alguns trocados e passou a
emprestar dinheiro a juro, ganhou muito dinheiro à custa dos miseráveis que
recorriam aos seus serviços. Enricou, ficou famoso, virou um astro, e assim
surgiu o coronel Astrogildo.
         Astrogildo
teve uma morte horrível; caiu na toca de uma jaracuçu, e foi mordido tanto pela
cobra mãe como pelos quarenta filhotes da serpente. Os mais antigos diziam que
foi praga daquela gente faminta explorada por Gildo; imaginem o susto de
Ditinho Meia-colher ao reconhecer o falecido; – “Coronel Astrogildo, o senhor
por aqui? O que faz neste meio de mato? ”
        
“Estou à procura de Renato Angorá, o infeliz me deve dois mil Réis e fugiu para
a montanha. Ah, se eu pego o pitoqueiro! ”
         Renato
Angorá era o avô de Ditinho; – “Quem diria, vovô Angorá devia dinheiro ao
coronel Astrogildo! Acho que pediu ajuda ao coronel quando vovó Esmeralda foi
internada às pressas e teve de ser operada… Tadinha da vovó, morreu na mesa
de operação, e vovô desapareceu…. Então foi isso, vovô Renato fugiu para a
montanha e o coronel Astrogildo acabou com a vida dele! ”
         A
visagem do coronel Astrogildo era nítida, e Ditinho nunca soube explicar como o
coronel sabia que ele era o neto de Renato Angorá; – “Ah, você é o neto de
Angorá! Não tem tu, vai tu mesmo! Se prepare para entregar a alma ao capeta. ”,
e apontou a arma para a cabeça de Meia-colher. Foi nesse instante que Ditinho
gritou bem alto; – “Valei-me meu Bom Jesus de Iguape! ”, e então um demônio saiu
da mata mais densa e pegou Gildo pela garganta e desapareceu terra abaixo.
         Ditinho
Meia-colher se escafedeu da montanha, perdeu a atiradeira, e nunca mais passou
perto das ruínas da Porcina, mas já teve gente que cruzou com o fantasma do
coronel Astrogildo em outros locais da cidade, e quase sempre depois da
meia-noite, pois os agiotas nunca morrem totalmente, ficam vagando nas sombras,
perseguindo aqueles que lhes pediram dinheiro emprestado e não pagaram.
Gastão Ferreira/2019
        

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