A terra sem males

– Yby marã e’yma –

         Quando
da chegada dos navegadores europeus ao Novo Mundo, entre 1494 e 1500, Pindorama
possuía aproximadamente 3.000.000 de habitantes, e o Reino de Portugal 1.500.000
súditos.
         No
território de Pindorama viviam e guerreavam entre si, inúmeras tribos; os
Guaianases, Ibirajaras, Calapalos, Cuicoros, Camaiurás, Termiminós, Tupis,
Carijós, Guaranis, Potiguares, Cariris, Tapuias, Goitacazes, Camacuans,
Carajás, Aimorés, Tamoios, Tupinambás, Tupiniquins, Minuanos, Patos, Charruas,
e outras mais. 
         A
antropofagia era um costume tribal, praticado por todas as etnias conhecidas, e
o guerreiro capturado em batalha era devorado num grande banquete, onde todos
os membros da tribo participavam.
         Entre
os anos de 1500 e 1578 praticamente os habitantes originais das terras do
Brasil foram exterminados; dos três milhões, existentes no ano de 1500,
restaram 35.000 em 1578. Nossos índios tinham um senso de liberdade exacerbado,
jamais se adaptaram ao cativeiro, e a revolta contra os conquistadores era
contínua e feroz.
         A
briga entre europeus e ameríndios foi devastadora; 2.800.000 índios pereceram
devido as doenças, e as guerras, contra a morte de 4.000 portugueses. Vale
lembrar que as vilas e feitorias dos lusitanos, eram escassas, e possuíam no
máximo 100 pessoas; cada tribo era constituída entre 50 a 100 indivíduos, e
eram milhares.
         Os
índios não possuíam antídotos contra as doenças dos europeus. Há relatos de
80.000 mortes de uma só vez por surto de varíola, e foram milhões de mortes
devido a gripe; tribos inteiras deixaram de existir da noite para o dia.
         Iguape,
fundada antes de 1538 participou ativamente deste período negro de nossa
história, onde os jesuítas tentaram em vão catequizar os índios, e por fim
participaram do golpe final, na destruição definitiva da Confederação dos
Tamoios em 1567, onde numa só batalha 160 aldeias foram incendiadas e toda a
população passada ao fio da espada.
         A
Confederação dos Tamoios teve seu foco principal no atual Rio de Janeiro, mas
provavelmente deixou marcas em Iguape; como os portugueses não conseguiam
escravizar a contento os povos indígenas, a solução foi exterminá-los. Entre os
anos de 1555 e 1567, 200.000 índios foram mortos, valendo lembrar que nas
terras do Brasil viviam aproximadamente 9.000 europeus no ano de 1570.
         No
ano de 1570, todas as vilas, cidades, freguesias somavam 35.000 habitantes,
sendo ¼ constituídos de portugueses e o restante escravos índios e africanos.
Alguns indígenas não eram tidos como escravos, mas sim agregados, uma invenção
brasileira para quem vive encostado em alguma família, não sendo empregado, nem
cativo, nem parente, e prestando favores em troca de comida, mas sem salário.
         Yby
marã e’yma, movimento dos pajés pela busca da “terra sem males”, foi marcado
por conflitos religiosos, raciais e civilizatórios, e deixou marcas profundas
na sociedade brasileira; os pajés, também conhecidos como Karaí não viviam
junto a tribo, eram considerados sagrados, e não podiam ser mortos para serem
devorados posteriormente.
         A
busca pela “terra sem males” levou milhares de indígenas ao extermínio, saiam
sem rumo à procura do paraíso e acabavam mortos em conflitos com tribos
estranhas. A região da Jureia era considerada uma “terra sem males”, e um dos
paraísos tupi-guarani.
         A
presença indígena foi tão marcante na formação do Brasil que até 1757 a língua
geral, conhecida como nheengatu, era a única falada em todo o país. Dom
Henrique de Évora (1512 – 1580), o rei-cardeal proibiu o nheengatu e após esta
data é que o idioma português se firmou como língua oficial.
         Ficaram
milhares de termos de origem tupi-guarani; jabuti (aquele que come com os
olhos) – jararaca (que tem bote venenoso) – Jacaré (que olha torto) – Curitiba
(lugar dos pinhões) – Miracatu (terra de gente bonita) …. No ano de 1500
existiam três milhões de índios em Pindorama, no início do século XXI (ano
2.000) vivem em terras brasileiras menos de 200.000 silvícolas. Não podemos esquecer
que nossa cidade, Iguape, viveu e participou de toda esta história, aqui o
passado e o presente se juntam, e nós nem percebemos.
Gastão Ferreira/2019
Leitura consultada
 A
Conquista do Brasil
     
– 1500 – 1600 –
     
Thales Guaracy
 

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