A explosão
         Aquela
noite ficou na história da ex-vila dos Confins; era quase três horas da
madrugada quando algo muito estranho aconteceu. Dona Benê acordou
sobressaltada, podia jurar que fora acordada por uma forte explosão; tinha o
sono leve e despertava com o menor ruído, e foi devido a esta falta de sono que
ela descobriu a identidade de um lobisomem que assustava a vizinhança todas as
noites de lua cheia, se bem que agora não é o momento para recordar esse famoso
causo.
         Madame
Ashley, a vidente e cartomante, vinda de mala, cuia e baralhos de tarô para a
vila, se assustou; – “Os extraterrestres estão fazendo contado! Sarava meu
Pai…. Pelo estrondo a nave caiu nas proximidades, espero que não tenha
sofrido grandes avarias…”
         Jajá
Mico-preto, acabara de chegar no muquifo; descolou trinta mireis pela bicicleta
de alumínio que encontrara no pátio de uma casa, conseguiu comprar duas pedras
e estava aprontando o cachimbo quando a detonação ocorreu. O nóia até pensou
que era a polícia tentando arrombar a porta do barraco, mas logo tudo serenou,
e voltou para a rua.
         Na
verdade nada serenou, metade da vila acordou com o estrondo e veio saber dos
acontecimentos, a noite estava morna; seu Carlito trouxe o isopor com cerveja
gelada, duas por R$10,00 – os gêmeos Caim e Abel, filhos do casal Eva e Adão,
aproveitaram o povão, ali reunido, para vender as empadinhas que encalharam na
revenda da tarde – Dita Pitoco tentou vendeu beijinhos, mas as moças de família
reclamaram e ela voltou correndo para a casa da luz vermelha – O homem do
churrasquinho de gato surgiu do nada, e o pessoal avançou nos espetinhos, e
pediram mais.
         Mil
teorias sobre o sinistro; o autor seria um inimigo mortal do jovem empresário, ou
um invejoso do sucesso alheio, ou alguém morrendo de ciúmes, talvez uma
ex-namorada vingativa, um esquerdopata tentando chamar a atenção, sujão limpeza
tentando aparecer, o homem do saco voltando a atacar, pessoas inconformadas com
a partida do leão da passarela para o outro lado do valo, uma oncinha solitária
no cio, mil teorias da conspiração…
         O
automóvel importado chegou cantando pneus dentro da noite, a mulher de longos
cabelos negros, e óculos escuros, após um segurança abrir a porta do veículo,
sob o olhar atento do zé-povinho, a madame desceu do carro e olhou a vasta
destruição causada pelas dinamites; -“Eu sei quem causou todo este estrago…”,
fez um muxoxo, olhou com cara de nojo para a ralé, subiu no carrão e caiu no
mundo…
         Todos
estão aguardando a perícia, como eu não sei e nem desconfio de ninguém, assim
que souber de alguma novidade, seja através do facebook, WhatsApp, telefone,
carro do ovo, programa de rádio, informarei aos curiosos leitores.
Gastão Ferreira/2019
   
        
          
          

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