Voltando                                                            

         A
grande enchente do ano de 1985 foi terrível. Sitiantes perderam plantações,
equipamentos e casas. Dito Tony, um rapazote de 17 anos, ajudou no resgate de
centenas de pessoas e já era considerado um jovem herói pelo povo da cidade.
         Dito
Tony mergulhou para salvar mais uma vítima da cheia; bateu com a cabeça numa
pedra, desmaiou, entrou em coma e só acordou no hospital de Pariquera em
Dezembro de 2015. Mais de trinta anos adormecido; três décadas longe de sua
querida Iguape.
         Foi
uma dificuldade conseguir que Dona Ignácia aceitasse o filho de volta ao lar.
Ela havia mudado para a Popular Velha e vendera a casa da cidade para custear o
tratamento de Dito Tony e, além disto, estava para lá da terceira idade e com
Alzheimer e gritava para o filho:- “Você não é Tony! Dito Tony era um mocinho
bonito e você além de estar bem acabadinho é feio pra cacete!” Enfim, num
momento de rara lucidez, reconheceu o amado filho e a vida continuou.
         Dito
Tony, agora com 47 anos, saiu para dar um rolê pela cidade; queria rever os
amigos e Cleide Lucinete, a sua fiel namorada. Não encontrou a barquinha de
transporte, a que fazia a travessia do Valo Grande Rocio-Iguape e ficou muito admirado
com a nova passarela, coisa que jamais imaginou.
        
“Vou comer um pastel no mercado… Bater um papo com o seu Hélio e saber das
novas.” pensou.
         Dito
Tony quase ficou maluco: – “Caramba! Um imenso supermercado onde antes era um
depósito de material para construção. Cadê a balsa para a ilha? Nossa a beira
do mangue virou um jardim! A Avenida Princesa Isabel está asfaltada! Não tem
mais o mercado municipal! Meu Bonje! Não estou em Iguape! Vou até a Praça da
Matriz. Vou comer um pudim no carrinho do João do Doce e saber o que ocorre.”
         Tony
quase pirou de vez! Casas Americanas, Bradesco, comida self-service, jovens
saudáveis pedindo dinheiro, nóias exigindo uma grana para comprar drogas,
velhos vendendo picolés e ralando debaixo de sol… Bateu uma leve dor de
cabeça: – “Vou consultar o Zé Carlos e comprar um remédio”, pensou. Farmácia
Colombo fechada, Ambrósio não estava mais atrás do balcão, sorveteria do Dito
agora era um chaveiro, Zé Juca não era mais Zé Juca, posto da marinha
desapareceu e o coreto… Uma cruz de pedra! “Roubaram o coreto!” exclamou.
         O
moço não desistiu, foi até a casa de seu grande amor, a Cleide Lucinete. No
caminho foi reparando nas mudanças; quitanda da Adelaide já era e a papelaria
da Branca também. Muitos pontos comerciais diferenciados, ruas com calçamentos,
motos e carros modernos, um monte de supermercados. Parou frente à casa de
Cleide Lucinete e bateu palmas; uma mulher mal cuidada, faltando dois dentes,
cabelos cor de beterraba, quarenta quilos acima do peso. Dito despistou; –
“Gostaria de falar com Dona Lucinete!”
        
“O senhor tem hora marcada?” perguntou a mulher.
        
“Algum problema? Por que tenho de marcar hora?”
        
“Olha aqui moço! Eu sou Cleide Lucinete, alias Madame Lucinete… O senhor não
viu a plaquinha?”
        
“Que plaquinha senhora?”
        
“Aquela ali! Madame Lucinete – Vidente.”
        
“Nossa a senhora é uma vidente?”
        
“E das melhores, meu senhor! Eu sei tudo.”
        
“Duvido!”
        
“Pode perguntar o que quiser!”
        
“Quem ganha à próxima eleição? Cocho ou Berne?”
        
“Nem um nem outro! Há anos que não existe mais cocho e Berne… O senhor me
lembra alguém que conheci há muito, muito tempo… Ditinho Tony.”
        
“Quem foi Ditinho Tony?”
        
“Um namoradinho bem bobinho dos tempos da adolescência… Bateu com a cabeça
numa pedra e nunca mais saiu do coma…”
        
“A senhora ainda espera por ele?”
        
“Imagina! Tenho cinco filhos… Um de cada pai e recebo pensão dos cincos
ex-maridos… Ditinho Tony não tinha profissão definida naquela época e se
aparecer vai querer que eu o sustente… To fora! Agora estou só e a espera de
um novo amor; o senhor até que é bem charmoso!”
        
“Que é isto Madame Lucinete! Sou casado e amo minha mulher e meus filhos…”
        
“Qual o seu nome?”
        
“Antonio Carlos da Silva.”
        
“Lindo nome! Apareça para um cafezinho…”
         Dito
Tony pensou; – “Do que me livrei meu Bonje!” e continuou o passeio. Iguape
estava bem diferente após trinta anos; lagamar e Valo Grande assoreados, o
sobrado dos Toledos em ruínas, a Pirá detonada, o correio velho
rejuvenescido… Muita coisa feia, mas também muitas e muitas coisas bonitas e
modernas; -“Passaram sete prefeitos por Iguape… É só passaram! Pensando bem,
Iguape continua linda, mas poderia estar bem melhor… Acabou o cocho e berne,
acabou o troca-troca, que agora venha o progresso… Vou para casa tomar um bom
banho e a noite eu quero curtir no Rato que Ri e depois dançar no Supimpa e na
Sandália de Prata e talvez dê um pulo no Barracão ou no Chão de Estrelas.”
Gastão Ferreira/2015

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