Sobre nomes

         Seu
Malboro era um pequeno sitiante; nasceu numa tapera para os lados do Pé da
Serra e ao ser registrado, seu pai Nhô Creudo, um fumante inveterado, o
presenteou com um lindo nome de cigarro; Malboro.
         O
guri cresceu no meio do mato; ganhou um cachorro de nome Traíra, bom rastreador
e de excelente faro. Dona Tatiana, mãe de Malboro, quando queria saborear uma
caça, era só falar: – “Traíra, hoje vamos comer tatu!”, e, meia hora depois o
tatu já estava assando no fogão a lenha.
         Malboro
conheceu Maria Ritz numa Festa de São João; a mocinha foi pular a fogueira e
quase pegou fogo. O jovem Malboro foi o único jacu que não caiu na gargalhada e
assim conquistou a admiração, a simpatia e o coração da garota Ritz. O que
Maria Ritz não sabia era que o garoto só não zombou da queda por ser tímido e
um tanto fanhoso.
         O
primeiro filho foi um menino, o Jorge, e, um ano depois nasceu Lílian, uma
garotinha linda e saudável. As crianças cresceram felizes naquele fim de mundo;
nunca assistiram a uma televisão. Não possuíam celulares, computador e nem
roupas de grife. Tomavam banho frio na cachoeira, subiam nas árvores para
espiar os ninhos, olhavam para o céu noturno e se extasiavam com a beleza das
estrelas; Traíra cuidava para que nada de mal ocorresse com as crianças.
         Quando
Dona Maria Ritz foi matricular as crias, voltou da escola rural fula da vida: –
“Malboro! Que história é essa de Jorginho não se chamar Jorge e sim Eudisse?”
        
Sei não mulé!
        
Como não sabe? Seu traste! E como me explica que nossa princesinha Lílian não é
Lílian e sim Jadisse?
        
Num sei mulé! Cumu qui vô sabê?
        
Pois eu irei ao Cartório de Registro Civil desvendar essa história mal contada!
         Dito
e feito! Dona Maria Ritz veio à cidade e armou o maior barraco no Cartório de
Registro; o escrivão Eulálio era um tanto surdo, mas lembrava muito bem de Seu
Malboro, o fanho: – “Olha aqui Dona Maria Ritz! Não me venha com conversa
fiada! Lembro que quem escolheu o nome foi o seu marido e só para confirmar
ainda perguntei três vezes o nome das crianças. Como tenho um pequeno problema
de audição, da terceira vez entendi o que ele falou e ele praticamente gritou:
– “Eudisse Jorge! É o nome do meu filho.” Na hora de registrar a guria, foi a
mesma coisa; a senhora sabe que seu marido é fanho e eu pedi a repetição do
nome da menina e ele falou, tenho certeza absoluta:- “Jadisse Lílian! Minha
filha.”
         Dona
Maria Ritz contou o ocorrido para a sua comadre Nidia Gambá e nhanhá Gambá
defendeu o compadre Malboro: – “Sabe comadre! O compadre não tem culpa no
cartório; aquele escrivão surdo é tinhoso! Quando fui matricular o meu filho
Pedrinho, também descobri que ele tinha outro nome.”
        
E qual é o verdadeiro nome do Pedrinho?
        
Poizé!
        
Poizé?
        
A mesma velha história! O escrivão Eulálio perguntou três vezes o nome da
criança, e, o meu marido um tanto invocado por ter de repetir várias vezes o
mesmo nome, respondeu meio ríspido: – “Pois é Pedro Silva! O nome do meu
filho.”
        
Poizé Pedro Silva… Lindo nome! Um tanto diferente, é verdade.
Gastão Ferreira/2015   

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