Os amigos do rei

         Era
uma vez, num reino não tão distante, um garoto que já nasceu esperto; não
soltou o primeiro choro enquanto a parteira não lhe implorou; por favor! Chore
pirralho.
         De
uma família pobre que se fez nobre, o guri cresceu esperto pra dedéu; ofendia
professoras, batia em cachorro de rua, quebrava estátuas, pixava monumentos
históricos e ensinava palavrões aos coleguinhas menos nobres.
         Seu
pai, o nobrete Dagoberto Berto e sua mãe, madame Roberta Berto, tentaram passar
aos quatro filhos os sagrados princípios da ética, da humildade e da decência;
Umberto Berto, o filho mais velho, desde o berço, mostrou propensão para a
política, pois só fazia alguma coisa se ganhasse algo em troca. Diberto, o
segundo filho, já não era tão esperto e foi estudar medicina num outro reino. A
terceira cria era uma menina, Alberta Berto, a princesa; criada para casar com
um nobre de puro sangue azul, era a personificação da esnobação. O quarto
filho, Triberto Berto, foi educado para ser amigo do rei.
         Amigo
do rei era aquela personagem que sempre se dava bem com qualquer rei de
plantão; Triberto, nosso futuro amigo do rei, sabia das coisas; os segredos
mais bem guardados, os amores mais calientes, os pecados mortais mais
abomináveis, quem comia quem e quem não comia ninguém.
         Naquele
reino não tão distante, a conquista do trono parecia uma guerra; os podres mais
podres eram revelados, sacanagens familiares expostas em público, segredinhos
de alcova divulgados em folhetins. A plebe delirava; “- Sacanagem! Se este
candidato ganhar, o primeiro decreto será o exílio de Triberto”. Que nada! Logo
após a coroação, lá estava Triberto ao lado do rei, mandando e desmandando, não
importando qual dos candidatos conseguira a coroa.
         Triberto
não era o único amigo do rei; ser amigo do rei era uma instituição. O povo, que
sempre sabe das coisas, dizia: “- Que incrível! Muda a merda, mas as moscas são
sempre as mesmas”. O que o povo não atinava era que os amigos do rei eram a
causa de todos os males; eram eles os especialistas em maracutaias,
perseguições a desafetos, foguetórios desnecessários e oba-oba e salamaleques
aos que verdadeiramente detinham o poder.
         Em
breve, naquele reino não tão distante, haverá nova batalha pela conquista do
trono; o povo está esperto e atento na expectativa de que o novo rei decrete o
exílio permanente de todos os amigos do rei e que os cargos de confiança do
soberano sejam preenchidos com quem realmente queira o progresso do reino. Quem
viver verá? Ou não verá?
Gastão Ferreira/2015     
        

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