Dom Raton

         No
lixão Capivara todos comentavam o desaparecimento de Dom Raton; o rato era proprietário
de várias tocas e não era encontrado em nenhuma delas. As ratazanas velhas e
fofoqueiras espalharam que ele fugira para um covil no exterior.
         Na
bodega de Zé Preá, uma espelunca mal afamada que nenhum rato decente tem a
coragem de freqüentar, os comentários eram todos sobre o sumiço do rato mais
poderoso do entulho.
        
“Não acredito que Dom Raton tenha escapulido da imundícia”, disse Zeca Rato,
“um roedor tão esperto e risonho, tão amado e aplaudido, não desaparece de uma
hora para a outra sem deixar vestígios.”
        
“Eu acho que foi sequestrado…”, afirmou Dito Camundongo.
        
“Nem pensar! Aonde que alguém teria a coragem de sequestrar o máximo representante
de nossa comunidade?”, falou Zeca Rato.
        
“Como esquecer que há pouco tempo, guaxinins bandidos invadiram a sua suntuosa
toca e levaram alguns milhões”, lembrou Dito Camundongo.
        
“É verdade! E a grana nunca foi recuperada… Aí tem dentes de rato e dos
grandes”, emendou Dona Maria Cutia.
         – “Pobre Dom Raton!”, choramingou o
rato Anastácio.        
        
“O rato Dom Raton está podre de rico e Anastácio com pena do larápio”, disse
chateada Dona Maria Cutia.
        
“Lembra Cutia! Quando deu aquela enchente danada e Dom Raton foi pessoalmente
ao exterior buscar ajuda para todos nós?”, perguntou o rato Anastácio.
        
“É verdade! Dom Raton foi ao Chile, ao Peru, a Venezuela e gostou tanto dos
Andes que até comprou um buraco por lá…”, aproveitou para fofocar Dona Maria Cutia.
        
“Tudo falatório vazio! Depois vou passar no covil de Ritinha Ratazana e
perguntar se ela sabe de algo…”, disse Dito Camundongo.
        
“Quem é Ritinha Ratazana?”, perguntou Zeca Rato.
        
“Aquela ratinha toda empinadinha… Aquela tribufu a quem Dom Raton repaginou e
ficou uma ratona…”, riu Camundongo.
        
“Ah! A outra.”, falou Zeca Rato.
        
“Calados! Acabou de entrar no boteco o rato Pitipíti”, cochichou Zé Preá dono
do barzinho.
        
“Pitipíti! Alguma novidade sobre o paradeiro de Dom Raton?”, perguntou Zé Preá.
        
“Vai bem, obrigado! E mandou que eu pagasse uma rodada de cachaça para os
amigos,”, falou o rato Pitipíti.   
        
“Rato bom tá aí! Um viva à Dom Raton!”, gritaram todos os ratos ao mesmo tempo.
         Os
ratos estavam alterados, muita cachaça, muita canabis, muita pedra e conhaque,
e eis que chega um rato do mato e acabou com a festa; – “Os Ratos Federais
cercaram o lixão! Os animais de maior porte romperam o cerco; tamanduás,
oncinhas e jaguatiricas conseguiram escapar… Formigas, carrapatos e pulgas
sugadoras foram detidos… Fujam todos! Fujam!”
         Na
orla da praia, um ratinho da areia servia alguns petiscos a um charmoso casal;
-“Acabei de espiar no face book e estão dizendo que centenas de ratos
assessores abandonaram o lixão e entraram num avião com destino ao sul da
América do Sul; vão dar apoio moral ao chefão.”
        
“Raton, meu amor! Eles jamais nos encontrarão nessa ilha, tão comprida! Fique
calmo.”
        
“Estou calmo, querida Ritinha Ratazana, meu bem!”
        
“Um brinde amor! Um brinde a honestidade…”
        
“Tintim amada!”
        
                                                                                                               

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