Cabeça de burro
Estamos no ano de 1838; a comemoração
dos trezentos anos da fundação da cidade estava prevista para permanecer nos
anais da história, uma festa para ser lembrada durante os próximos quinhentos
anos como algo inesquecível. O senhor alcaide importou caixas e caixas de
rojões, os proprietários com eiras e beiras compraram roupas novas para todos
os seus escravos, os donos de engenho aumentaram a produção de cachaça e os
sitiantes capricharam na fabricação de farinha de mandioca.
dos trezentos anos da fundação da cidade estava prevista para permanecer nos
anais da história, uma festa para ser lembrada durante os próximos quinhentos
anos como algo inesquecível. O senhor alcaide importou caixas e caixas de
rojões, os proprietários com eiras e beiras compraram roupas novas para todos
os seus escravos, os donos de engenho aumentaram a produção de cachaça e os
sitiantes capricharam na fabricação de farinha de mandioca.
Na cidade as ruas foram varridas; os
cocôs de cachorros, cavalos, onças pintadas, antas e tatetos jogados no
lagamar. As casas da plebe vil, caiadas de branco; plebe vil era aqueles
moradores que trabalhavam de sol a sol e pagavam impostos ao rei e nunca
recebiam algo em troca. Nas janelas dos casarões dos mandachuvas, as colchas
bordadas com fios de ouro mostravam quem mandava e desmandava de verdade.
cocôs de cachorros, cavalos, onças pintadas, antas e tatetos jogados no
lagamar. As casas da plebe vil, caiadas de branco; plebe vil era aqueles
moradores que trabalhavam de sol a sol e pagavam impostos ao rei e nunca
recebiam algo em troca. Nas janelas dos casarões dos mandachuvas, as colchas
bordadas com fios de ouro mostravam quem mandava e desmandava de verdade.
Os preparativos para a festança iam de
vento em popa; porcos, galinhas, tamanduás, raposas, novilhos e outros animais
na engorda e prontos para virarem espetinho ou farofa. Faltava apenas escolher
quem seria a princesa da festa; a donzela mais linda e a digna representante da
beleza e charme da mulher caiçara.
vento em popa; porcos, galinhas, tamanduás, raposas, novilhos e outros animais
na engorda e prontos para virarem espetinho ou farofa. Faltava apenas escolher
quem seria a princesa da festa; a donzela mais linda e a digna representante da
beleza e charme da mulher caiçara.
Durante um bingo beneficente para
arrecadar fundos a fim de comprar a coroa da princesa, Dona Zenaide e Dona
Zenira se desentenderam e a coisa ficou feia; a briga passou a história como “o
barraco das Zens” ou “cabeça de burro”.
arrecadar fundos a fim de comprar a coroa da princesa, Dona Zenaide e Dona
Zenira se desentenderam e a coisa ficou feia; a briga passou a história como “o
barraco das Zens” ou “cabeça de burro”.
Elízia Regina, a filha mais jovem de
madame Zenaide uma pobre que se fez nobre pelo casamento, era a preferida da
plebe; a donzela Lilízia era por demais desprendida e usava e abusava do ouro
paterno para auxiliar os desvalidos; muitos cursos de corte e costura. Aulas de
pintura e outras oficinas básicas eram mantidas pela gentil e desligada aprendiz
de dondoca.
madame Zenaide uma pobre que se fez nobre pelo casamento, era a preferida da
plebe; a donzela Lilízia era por demais desprendida e usava e abusava do ouro
paterno para auxiliar os desvalidos; muitos cursos de corte e costura. Aulas de
pintura e outras oficinas básicas eram mantidas pela gentil e desligada aprendiz
de dondoca.
Neide Aparecida, a herdeira mais velha
de madame Zenira, era a preferida da “zelite”; a menina Nenei, uma declamadora
nata e nata da nata da sociedade. Embalada em um berço dourado desde o
nascimento, criada com ova de tainha e caldinho de manjuba, era a outra
candidata a princesa do evento. As picuinhas entre as pretendentes a coroa era
coisa antiga e a inimizade levada a extremos.
de madame Zenira, era a preferida da “zelite”; a menina Nenei, uma declamadora
nata e nata da nata da sociedade. Embalada em um berço dourado desde o
nascimento, criada com ova de tainha e caldinho de manjuba, era a outra
candidata a princesa do evento. As picuinhas entre as pretendentes a coroa era
coisa antiga e a inimizade levada a extremos.
Madame Zenira possuía três escravas
trigêmeas; Tetê, Bibi e Maria Leopoldina Emerenciana. O trio de irmãs eram
filhas de uma feiticeira nagô, e, as três cativas eram peritas nas artes da
magia negra; adoravam a menina Nenei e o quê a moleca pedia era encarado como
uma ordem, e a ordem foi: – Destruam Elízia Regina.
trigêmeas; Tetê, Bibi e Maria Leopoldina Emerenciana. O trio de irmãs eram
filhas de uma feiticeira nagô, e, as três cativas eram peritas nas artes da
magia negra; adoravam a menina Nenei e o quê a moleca pedia era encarado como
uma ordem, e a ordem foi: – Destruam Elízia Regina.
Todos sabem que a pior mandinga
existente é feita com uma cabeça de burro; o local onde enterram a cabeça
jamais irá para frente. A pessoa visada pelo feitiço será vítima de fofocas,
inveja, intrigas e maledicências e nunca terá nada na vida.
existente é feita com uma cabeça de burro; o local onde enterram a cabeça
jamais irá para frente. A pessoa visada pelo feitiço será vítima de fofocas,
inveja, intrigas e maledicências e nunca terá nada na vida.
Tanto é verdade que o bruxedo foi
proibido; em cada esquina da cidade, por qualquer desavença insignificante, os
desafetos enterravam uma cabeça de burro e assim chegou a faltar asno na
freguesia, mas as três espertas e malignas bruxas importaram uma cabeça de
Cananéia e concluíram o feitiço.
proibido; em cada esquina da cidade, por qualquer desavença insignificante, os
desafetos enterravam uma cabeça de burro e assim chegou a faltar asno na
freguesia, mas as três espertas e malignas bruxas importaram uma cabeça de
Cananéia e concluíram o feitiço.
Quinze dias antes da festa o sortilégio
estava pronto e funcionando; a coisa ficou feia! Começou a chover e não parava
mais. Os bananais foram destruídos pela enchente; o valo grande desmoronou e
quarenta casas surucaram. As manjubas se negaram a subir o rio e as tainhas da
costa deram as costas para a costa e se mandaram para o alto mar… A festa foi
cancelada.
estava pronto e funcionando; a coisa ficou feia! Começou a chover e não parava
mais. Os bananais foram destruídos pela enchente; o valo grande desmoronou e
quarenta casas surucaram. As manjubas se negaram a subir o rio e as tainhas da
costa deram as costas para a costa e se mandaram para o alto mar… A festa foi
cancelada.
Até a atualidade ninguém descobriu onde
foi enterrada a cabeça do burro; o que se nota é que o efeito do feitiço permanece,
pois, toda a vez que o município emancipa uma parte de suas terras para formação
de outra freguesia, a cidade nova prospera e a cidade mãe decai.
foi enterrada a cabeça do burro; o que se nota é que o efeito do feitiço permanece,
pois, toda a vez que o município emancipa uma parte de suas terras para formação
de outra freguesia, a cidade nova prospera e a cidade mãe decai.
O resultado de “o barraco das Zens” foi
que nenhuma das duas dondoquinhas foi eleita Princesa. Aliás, nem teve festa;
Dona Zenira ficou pobre, pobre de maré, maré e até fizeram uma música sobre a sua
pobreza. A sua filha Neide Aparecida e as três escravas passaram a fazer
salgadinhos para fora e comeram o salgadinho que o diabo recheou, mas não
perderam a panca; comiam manjuba e arrotavam salmão.
que nenhuma das duas dondoquinhas foi eleita Princesa. Aliás, nem teve festa;
Dona Zenira ficou pobre, pobre de maré, maré e até fizeram uma música sobre a sua
pobreza. A sua filha Neide Aparecida e as três escravas passaram a fazer
salgadinhos para fora e comeram o salgadinho que o diabo recheou, mas não
perderam a panca; comiam manjuba e arrotavam salmão.
Elízia Regina também ficou paupérrima,
mas como participava ativamente de todos os cursos que financiava com a grana
do papai poderoso, montou o “Barraco do Artesão” e ficou muito bem de vida
vendendo artesanato para turistas e romeiros. O restante da plebe e da elite se
ferrou e desde então passaram a alugar quartos em suas casas durante as grandes
festas e o carnaval. Quem não conseguia uns pixulecos começou a pedir favores
aos politiqueiros; dentadura, pagamento de contas em atraso, passagem de barcos
para outras cidades, telhas, tijolos, moveis e cestas básicas. O beija-mão
virou moda e até hoje funciona como passaporte para o poder e o mando.
mas como participava ativamente de todos os cursos que financiava com a grana
do papai poderoso, montou o “Barraco do Artesão” e ficou muito bem de vida
vendendo artesanato para turistas e romeiros. O restante da plebe e da elite se
ferrou e desde então passaram a alugar quartos em suas casas durante as grandes
festas e o carnaval. Quem não conseguia uns pixulecos começou a pedir favores
aos politiqueiros; dentadura, pagamento de contas em atraso, passagem de barcos
para outras cidades, telhas, tijolos, moveis e cestas básicas. O beija-mão
virou moda e até hoje funciona como passaporte para o poder e o mando.
Cremos
que um dia o feitiço será desfeito e a cidade voltará a prosperar.
que um dia o feitiço será desfeito e a cidade voltará a prosperar.
Gastão Ferreira/2015
Gastão Ferreira começou a publicar seus textos aos 13 anos. Reconhecido por suas crônicas e poesias premiadas, suas peças de teatro alcançaram grandes públicos. Seus textos e obras estão disponíveis online, reunidos neste blog para que todos possam desfrutar de sua vasta e premiada produção.