Apenas uma lenda urbana

                Contam as lendas urbanas que Dona Maria Emerenciana,
esposa do coronel Juliano de Matos, teve as gêmeas Das Dores e Das Graças numa
noite de tempestade; Dona Merê, a mulher mais rica da rica freguesia guarda um
segredo e enquanto o mistério não é revelado, as miúdas crescem…    
         Maria
das Dores foi um bebê espanto; ninguém dizia “bilu-bilu” ao vê-la e sim “cruz
credo!”… Cresceu escondendo-se pelos cantos escuros do velho casarão e o
local predileto para se ocultar era a biblioteca.
         Maria
das Graças foi eleita o bebê simpatia; todas as tias diziam sim a todos os
pedidos da guria; cresceu fazendo caras e bocas nas inúmeras janelas do velho
casarão e acenando para os passantes que murmuravam: – “Que graça de criança!”
         O
coronel Juliano era o que antigamente chamava-se de factótum, ou seja, um faz
tudo; como ninguém nasce sabendo, o coronel aprendeu lendo e todo o seu vasto
conhecimento estava guardado nos livros de sua biblioteca.
         Maria
das Graças, a Gracinha, foi matriculada na única escola particular da paróquia e
papai coronel comprou a peso de ouro todos os seus diplomas; a mocinha gostava
de mostrar às muitas amigas a parede forrada de certificados dos muitos cursos
concluídos com mérito sem mérito.
         Maria
das Dores foi alfabetizada em casa por uma princesa africana de nome Yama, que
falava, lia e escrevia em francês, inglês, espanhol, alemão, italiano,
mandarim, russo e árabe. Feita prisioneira e vendida como escrava ao coronel
foi quem ensinou as primeiras letras à criança e a criança solitária devorou a
biblioteca inteira e nunca mereceu um diploma para chamar de seu.
         Quando
os piratas invadiram a vila e rapinaram o ouro e a prata, também incendiaram
várias casas; as adolescentes Das Dores e Das Graças foram levadas pelos
corsários.
         Das
Graças arrumou múltiplos pretendentes, mas como era muito burrinha, marido que
é bom, nada feito! Ganhou muitos mimos dos namorados e nada mais; passava os
dias de cativeiro lavando e varrendo o tombadilho do navio.
         Das
Dores conseguiu salvar a tripulação de um naufrágio iminente e tornou-se a
imediata do comandante pirata; entendia de rotas marítimas, boa em matemática,
excelente em química, física, geologia, falava vários idiomas. Era uma
comerciante nata e assim passou a ter sua parte no butim.
         Dez
anos se passaram e num belo dia os piratas devolveram as garotas, agora
mulheres feitas; Dona Merê correu a abraçar a filha predileta:- “Em que linda
mulher você se transformou, Das Graças! Que belo traje! Que porte altaneiro!
Quanto ouro! Seja bem-vinda minha filha.”, “Não sou Das Graças, mamãe! Sou Das
Dores! Onde está a princesa Yama? Temos muito o que conversar.”
         Das
Dores mandou reformar o velho casarão paterno que estava caindo aos pedaços e
após muita troca de idéias com Yama, resolveram que o melhor investimento seria
em navegação; compraram alguns bergantins e construíram um porto na freguesia.
         Das
Graças, um tanto acabadinha devido ao tempo que passou lavando o tombadilho do
navio pirata e as noites de namoricos insones, começou a receber amigos e mimos
na nova casa e não se casou.
         Das
Dores casou-se com um caiçara sem diploma; um pescador, primeiro exportador de
um peixinho de nome manjuba e ficaram milionários.
         Dona
Merê jamais contou seu segredo e nunca alguém se interessou em saber qual era o
segredo tão bem guardado; fim da lenda urbana.
Gastão Ferreira/2015     
        
                

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