A visita
Quando
a noite chegou e espantou a tarde para além dos limites da vila, a velha fechou
todas as janelas do casarão e trancou as portas. Nenhuma lamparina foi acesa e
nenhuma réstia de luz rondava o recinto; seu mundo era sombrio e a casa se quedou
em silêncio.
a noite chegou e espantou a tarde para além dos limites da vila, a velha fechou
todas as janelas do casarão e trancou as portas. Nenhuma lamparina foi acesa e
nenhuma réstia de luz rondava o recinto; seu mundo era sombrio e a casa se quedou
em silêncio.
Na
pequena sala apenas duas cadeiras de alto espaldar, uma frente à outra.
Cadeiras antigas do tempo do imperador; na escuridão o vulto de Marina tomou
forma e sorriu; – “Boa noite vovó!”
pequena sala apenas duas cadeiras de alto espaldar, uma frente à outra.
Cadeiras antigas do tempo do imperador; na escuridão o vulto de Marina tomou
forma e sorriu; – “Boa noite vovó!”
–
Boa noite minha neta! Que bons ventos a tragam…
Boa noite minha neta! Que bons ventos a tragam…
–
Venho da parte de Honório, meu pai…
Venho da parte de Honório, meu pai…
–
Honório partiu! Seu barco naufragou… Nunca voltou da última viagem… Meu
filho morreu minha neta.
Honório partiu! Seu barco naufragou… Nunca voltou da última viagem… Meu
filho morreu minha neta.
–
Meu pai vive vovó!
Meu pai vive vovó!
–
Mentirosa! Você também partiu Marina. Todos partiram! Só eu fiquei; sou a
guardiã da fortuna familiar. A zeladora do nome dos nossos antepassados…
Mentirosa! Você também partiu Marina. Todos partiram! Só eu fiquei; sou a
guardiã da fortuna familiar. A zeladora do nome dos nossos antepassados…
–
Não se iluda vovó! Ninguém partiu. Estamos todos aqui e a senhora sabe disto…
Os murmúrios…
Não se iluda vovó! Ninguém partiu. Estamos todos aqui e a senhora sabe disto…
Os murmúrios…
–
Não me fale em sussurros! São meus pesadelos. Ouço o murmúrio!… Vozes que
contam antigas histórias sobre soberba, crimes passionais, amores
desencontrados, assassinatos… Coisas que jamais ocorreram em nossa ilustre
família…
Não me fale em sussurros! São meus pesadelos. Ouço o murmúrio!… Vozes que
contam antigas histórias sobre soberba, crimes passionais, amores
desencontrados, assassinatos… Coisas que jamais ocorreram em nossa ilustre
família…
–
São recordações desta casa vovó! Ela guarda fatos. As paredes têm memórias…
São recordações desta casa vovó! Ela guarda fatos. As paredes têm memórias…
–
Menina tonta! Quanta bobagem! Ontem mesmo padre Eugênio me visitou e afirmou
que tais coisas não existem…
Menina tonta! Quanta bobagem! Ontem mesmo padre Eugênio me visitou e afirmou
que tais coisas não existem…
–
Vovó! Padre Eugênio partiu faz oitenta anos…
Vovó! Padre Eugênio partiu faz oitenta anos…
–
Impossível! Ainda ontem lhe entreguei o dízimo do mês, a minha cota pessoal do
futuro paraíso que me aguarda…
Impossível! Ainda ontem lhe entreguei o dízimo do mês, a minha cota pessoal do
futuro paraíso que me aguarda…
–
Todos partiram! Todos estão mortos…
Todos partiram! Todos estão mortos…
–
Não engane a sua avó! Eu estou muito viva; eu penso, eu vejo, eu sinto e
respiro…
Não engane a sua avó! Eu estou muito viva; eu penso, eu vejo, eu sinto e
respiro…
–
Onde estão guardadas as velas vovó?
Onde estão guardadas as velas vovó?
–
Velas? Na gaveta da cômoda…
Velas? Na gaveta da cômoda…
–
Vamos acender uma vela, criar luz…
Vamos acender uma vela, criar luz…
–
Não Marina! Não suporto luz…
Não Marina! Não suporto luz…
–
A escuridão tem nomes vovó! Arrogância, preconceito, vaidade… Nomes que
arranham nossa alma imortal…
A escuridão tem nomes vovó! Arrogância, preconceito, vaidade… Nomes que
arranham nossa alma imortal…
–
Sou uma mulher casta e honesta minha neta! A zeladora da dignidade familiar e a
última dos Silva Ramires, herdeira dos venerandos fundadores da vila…
Sou uma mulher casta e honesta minha neta! A zeladora da dignidade familiar e a
última dos Silva Ramires, herdeira dos venerandos fundadores da vila…
–
Nossos antepassados… Assassinos de indígenas, os que açoitavam negros fujões,
os que matavam desafetos, abusavam das mocinhas pobres e compravam o perdão de
Deus com o ouro sujo de sangue…
Nossos antepassados… Assassinos de indígenas, os que açoitavam negros fujões,
os que matavam desafetos, abusavam das mocinhas pobres e compravam o perdão de
Deus com o ouro sujo de sangue…
–
Cale-se criança! Não manche com palavras torpes a memória dos nossos
ancestrais…
Cale-se criança! Não manche com palavras torpes a memória dos nossos
ancestrais…
–
Vovó! As sombras que murmuram são eles… São eles os que ofendem a vida… São
eles que gritam seus pecados na escuridão onde se encontram… Vamos acender
uma vela! Vamos por um fim à escuridão…
Vovó! As sombras que murmuram são eles… São eles os que ofendem a vida… São
eles que gritam seus pecados na escuridão onde se encontram… Vamos acender
uma vela! Vamos por um fim à escuridão…
–
Não! Não! Jamais abandonarei o meu tesouro. Minhas jóias, minhas escravas, o
luxo deste casarão; sou poderosa, menina! Cuide-se de minha ira…
Não! Não! Jamais abandonarei o meu tesouro. Minhas jóias, minhas escravas, o
luxo deste casarão; sou poderosa, menina! Cuide-se de minha ira…
–
Há anos tento despertá-la para a verdadeira vida… Venha comigo vovó!
Liberte-se das trevas…
Há anos tento despertá-la para a verdadeira vida… Venha comigo vovó!
Liberte-se das trevas…
–
Você é apenas uma visita indesejada! Saia de minha casa! Desapareça de vez.
Você é apenas uma visita indesejada! Saia de minha casa! Desapareça de vez.
–
Voltarei vovó! Voltarei como volto todas as noites…
Voltarei vovó! Voltarei como volto todas as noites…
–
Saia!
Saia!
Do
coração das trevas eles espiavam e no velho casarão corroído pelas intempéries,
parcialmente destruído pelo tempo, sorriram: – “Ela jamais nos abandonará!
Nosso sangue… Nosso orgulho… A guardiã de nossa vaidade e prepotência…
Marina é somente uma visita indesejada, um fantasma do passado, alguém que
morreu e não sabe.”
coração das trevas eles espiavam e no velho casarão corroído pelas intempéries,
parcialmente destruído pelo tempo, sorriram: – “Ela jamais nos abandonará!
Nosso sangue… Nosso orgulho… A guardiã de nossa vaidade e prepotência…
Marina é somente uma visita indesejada, um fantasma do passado, alguém que
morreu e não sabe.”
Gastão Ferreira/2015
Gastão Ferreira começou a publicar seus textos aos 13 anos. Reconhecido por suas crônicas e poesias premiadas, suas peças de teatro alcançaram grandes públicos. Seus textos e obras estão disponíveis online, reunidos neste blog para que todos possam desfrutar de sua vasta e premiada produção.