A casa mal assombrada

         Era
um casarão antigo de altos muros; o refúgio de todas as pipas perdidas e onde
as goiabas mais apetitosas nasciam e morriam sem nunca serem provadas. A
construção da vivenda datava do século XVIII e os impostos eram pagos sem atraso.
         Um
jovem casal, uma vez por mês fazia uma completa faxina no terreno; as árvores
eram podadas, os vitrais limpos por fora e as ervas daninhas carpidas. O casal
que cuidava da preservação era Marcelo e Anita; os pais, avós, bisavós e
tataravós de Anita foram servidores leais do primeiro dono e Anita herdou o
emprego de seus antepassados sem nunca ter falado ou visto qualquer um dos
proprietários.
         Os
comentários eram muitos; Dona Catherine, com seus cento e cinco anos de idade,
jura que quando era uma menininha sem noção, avistou uma velha espiando através
de um antigo vitral e ficou gaga por muitos anos. Só sarou da gagueira quando
conheceu o mancebo Tadeu, um rapaz que tentou se aproveitar de sua bobice e se
deu mal, pois casou obrigado e sem provar do fruto proibido antes da hora.
         A
história vai mais longe; contam os mais antigos que Zuiu Paletó Vermelho, o
maior bebum que a cidade conheceu, tanto que virou marca de cachaça em
homenagem póstuma; numa noite de lua cheia divisou alguns vultos dançando no
casarão. Escondeu-se atrás de uma árvore e ficou observando a orgia; dois
vultos de preto arrastaram uma moça que passava na rua para dentro da casa e
ele notou o brilho de um punhal e ouviu uma gargalhada satânica. Ninguém
acreditou no causo, mas Zuiu a partir daquela noite virou evangélico e nunca
mais bebeu na vida.
         Cidade
antiga, cidade de muitas lendas urbanas, cidade festeira; pessoas desapareciam,
os moradores achavam que tais ditos-cujos e ditas-cujas fugiam com algum
forasteiro, ou embarcavam como clandestinos nos navios estrangeiros que partiam
do porto para locais longínquos.
         Quando
Marcelo disse que jamais entrara no interior do casarão, os amigos o acusaram
de medroso e covarde. Marcelo prometeu que penetraria na casa, custasse o que
custasse; Anita foi contra tal ousadia e contou ao marido que muitas pessoas de
sua família invadiram a casa e jamais retornaram. Marcelo não acreditou e numa
noite, após uma pequena briga com a esposa, saiu de casa e desapareceu da
cidade.
         Anita
não contou para ninguém, mas tinha a certeza que Marcelo entrara no casarão;
ela foi até a casa, abriu o portão e contornou o pátio. Uma janela estava
aberta e no chão os chinelos de Marcelo… Anita pulou a janela… O silêncio
foi quebrado pelo barulho da janela se fechando sozinha… No final do corredor
uma porta entreaberta; no salão mal iluminado dezenas de quadros enfeitavam a
parede… Gente com roupa do século XVIII… XIX… XX… Anita reconheceu a
foto de vovô Juca, desaparecido há setenta anos e também a de seu tio Tonico e
de uma amiguinha de infância, a Thelma, que ela pensava que tinha fugido da
cidade com um batedor de carteira de uma Festa de Agosto… A última foto era a
de Marcelo, seu marido.
         O
brilho do punhal; só um golpe e bem no coração. O sangue recolhido em uma jarra
de cristal e vultos e risos e comemoração; – “Vamos ter que arrumar novos
serviçais”, disse a velha, e olhou para a parede onde o derradeiro retrato era
o de Anita.
Gastão Ferreira/2015
        
                  

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