Sozinha na estradinha
Muitas
pessoas, hoje em dia, não acreditam em visagens; – “Isto é coisa de
antigamente, coisa da época dos nossos bisavós, no tempo em que nem luz
elétrica existia, coisa de gente sem estudo…”, dizem. Mês passado, em pleno
século XXI, um fato muito estranho aconteceu em uma estradinha de terra no
Bairro do Morro Seco; um casal de pedagogos, ambos cientistas sociais da
capital do Estado, estavam à caminho de um quilombo para uma palestra. Uma
senhora magra, mal vestida, com um lenço estilo bandana na cabeça, parada na
beira da estrada pediu carona. O casal de professores, de bom coração, parou o
automóvel e se ofereceram para ajudá-la; a mulher fedia, um cheiro de ovo podre
infestou o interior do veículo, e a senhora murmurava; – “Não posso perder a
missa das dezoito horas, não posso.”
pessoas, hoje em dia, não acreditam em visagens; – “Isto é coisa de
antigamente, coisa da época dos nossos bisavós, no tempo em que nem luz
elétrica existia, coisa de gente sem estudo…”, dizem. Mês passado, em pleno
século XXI, um fato muito estranho aconteceu em uma estradinha de terra no
Bairro do Morro Seco; um casal de pedagogos, ambos cientistas sociais da
capital do Estado, estavam à caminho de um quilombo para uma palestra. Uma
senhora magra, mal vestida, com um lenço estilo bandana na cabeça, parada na
beira da estrada pediu carona. O casal de professores, de bom coração, parou o
automóvel e se ofereceram para ajudá-la; a mulher fedia, um cheiro de ovo podre
infestou o interior do veículo, e a senhora murmurava; – “Não posso perder a
missa das dezoito horas, não posso.”
Os
donos do carro já estavam arrependidos pela boa ação; imaginem naquele fim de
mundo dar carona para uma doida! Ainda bem que há uns seis quilômetros à
frente, a senhora pediu para descer; – “Eu fico aqui na frente da capela; não
posso perder a missa das dezoito horas, não posso! Obrigado pela ajuda; vão com
Deus!”, desceu e aquele fedor dentro do carro continuou por um bom tempo. O
casal estranhou, pois a capela era apenas um amontoado de pedras; – “Só pode
ser doida a criatura! Eu, hem.”
donos do carro já estavam arrependidos pela boa ação; imaginem naquele fim de
mundo dar carona para uma doida! Ainda bem que há uns seis quilômetros à
frente, a senhora pediu para descer; – “Eu fico aqui na frente da capela; não
posso perder a missa das dezoito horas, não posso! Obrigado pela ajuda; vão com
Deus!”, desceu e aquele fedor dentro do carro continuou por um bom tempo. O
casal estranhou, pois a capela era apenas um amontoado de pedras; – “Só pode
ser doida a criatura! Eu, hem.”
Após
a palestra foi servido um lanche, e o casal comentou sobre a mulher que pediu
carona. “Ela estava embaixo de uma grande árvore?”, alguém perguntou. “O
encontro foi na frente da lagoinha?”, “Ela fedia a ovo podre?”, “Ela disse
que não podia perder a missa das dezoito horas?”, “Ela desceu do carro frente
as ruinas da antiga capelinha?”, tantas perguntas e todas as respostas
afirmativas… Aí, tem!
a palestra foi servido um lanche, e o casal comentou sobre a mulher que pediu
carona. “Ela estava embaixo de uma grande árvore?”, alguém perguntou. “O
encontro foi na frente da lagoinha?”, “Ela fedia a ovo podre?”, “Ela disse
que não podia perder a missa das dezoito horas?”, “Ela desceu do carro frente
as ruinas da antiga capelinha?”, tantas perguntas e todas as respostas
afirmativas… Aí, tem!
O
quilombo do Morro Seco, é muito antigo, antecede a libertação da escravatura; é
um lugar isolado da civilização, casas esparsas em meio a luxuriante vegetação.
Esta lenda urbana começou no ano de 1906, e foi quando a mocinha Toninha fugiu
de casa com o Antunes, e andaram até Pedro de Toledo, e de lá, de trem partiram
para a cidade de Santos, e desapareceram de nossa história. Toninha saiu de
casa com a roupa do corpo, falou para a mãe, nhá Fininha que estaria na
capelinha, assistindo a missa das dezoito horas, e que logo regressaria à casa;
jamais voltou.
quilombo do Morro Seco, é muito antigo, antecede a libertação da escravatura; é
um lugar isolado da civilização, casas esparsas em meio a luxuriante vegetação.
Esta lenda urbana começou no ano de 1906, e foi quando a mocinha Toninha fugiu
de casa com o Antunes, e andaram até Pedro de Toledo, e de lá, de trem partiram
para a cidade de Santos, e desapareceram de nossa história. Toninha saiu de
casa com a roupa do corpo, falou para a mãe, nhá Fininha que estaria na
capelinha, assistindo a missa das dezoito horas, e que logo regressaria à casa;
jamais voltou.
Nhá
Fininha morreu acreditando que a filha fora raptada por algum fazendeiro, um
daqueles inconformados com a Princesa Isabel. Ela tinha certeza de que de uma
hora para a outra, a filha escaparia do cativeiro e se esconderia na capelinha;
desde menina, Toninha jamais perdera uma missa das dezoito horas, e o
sacristão, o Antunes era testemunha disso. Coisa estranha! O Antunes também
desaparecera, estão dizendo que foi comido por uma onça.
Fininha morreu acreditando que a filha fora raptada por algum fazendeiro, um
daqueles inconformados com a Princesa Isabel. Ela tinha certeza de que de uma
hora para a outra, a filha escaparia do cativeiro e se esconderia na capelinha;
desde menina, Toninha jamais perdera uma missa das dezoito horas, e o
sacristão, o Antunes era testemunha disso. Coisa estranha! O Antunes também
desaparecera, estão dizendo que foi comido por uma onça.
Nhá
Fininha passou anos e anos na esperança de reencontrar a filha. Na sua última
ida à capelinha foi picada por uma jaracuçu, e morreu junto a grande árvore
frente a lagoa; depois disso, uma vez por mês, seu vulto, costuma aparecer no
local, exatamente no dia em que senhor vigário vem da cidade para rezar a missa
das dezoito horas na capelinha do sítio. O veneno da jaracuçu apodreceu suas
carnes, e um cheiro de ovo podre se desprendia do seu corpo; morreu sozinha e abandonada
na beira da estradinha… Assustou e continua assustando muita gente.
Fininha passou anos e anos na esperança de reencontrar a filha. Na sua última
ida à capelinha foi picada por uma jaracuçu, e morreu junto a grande árvore
frente a lagoa; depois disso, uma vez por mês, seu vulto, costuma aparecer no
local, exatamente no dia em que senhor vigário vem da cidade para rezar a missa
das dezoito horas na capelinha do sítio. O veneno da jaracuçu apodreceu suas
carnes, e um cheiro de ovo podre se desprendia do seu corpo; morreu sozinha e abandonada
na beira da estradinha… Assustou e continua assustando muita gente.
O
casal de pedagogos, depois de ouvirem o estranho relato, começou a acreditar
que existem coisas para além de uma explicação lógica, e na volta para São
Paulo, mudaram de caminho, seguiram pela estrada que vai para Registro, um percurso
mais longo; eles acreditam que não encontrarão nenhuma visagem andando sozinha
na estradinha de terra batida; coitados! Não sabem que terão de passar, e perto
da meia-noite, bem na frente do sítio onde mora um dos nossos últimos
lobisomem, mas isso é uma outra história.
casal de pedagogos, depois de ouvirem o estranho relato, começou a acreditar
que existem coisas para além de uma explicação lógica, e na volta para São
Paulo, mudaram de caminho, seguiram pela estrada que vai para Registro, um percurso
mais longo; eles acreditam que não encontrarão nenhuma visagem andando sozinha
na estradinha de terra batida; coitados! Não sabem que terão de passar, e perto
da meia-noite, bem na frente do sítio onde mora um dos nossos últimos
lobisomem, mas isso é uma outra história.
Gastão Ferreira/2019
Gastão Ferreira começou a publicar seus textos aos 13 anos. Reconhecido por suas crônicas e poesias premiadas, suas peças de teatro alcançaram grandes públicos. Seus textos e obras estão disponíveis online, reunidos neste blog para que todos possam desfrutar de sua vasta e premiada produção.