Personagem

Passo a passo no caminho
Passarinho passador…
Passo a passo canarinho
Canarinho passa a dor…

Passo a passo de mansinho
Passarinho enganador…
Passo a passo canarinho
De mansinho engana a dor.

Passo a passo me disfarço
Neste mundo encantador,
Sigo a vida no compasso,
No meu passo encanto a dor.

Sou apenas personagem,
Vivo apartado de mim,
Vivenciando uma viagem
Sem começo, meio ou fim!

Gastão Ferreira
– Imbé/RS-2026-

Personagem: Um Poema Sobre as Máscaras da Vida, a Dor e a Busca por Si Mesmo

O poema “Personagem”, de Gastão Ferreira, apresenta uma reflexão sensível sobre a existência humana, os sentimentos escondidos e os personagens que assumimos ao longo da vida. Com musicalidade, repetições e uma linguagem aparentemente simples, o poeta revela uma mensagem profunda sobre identidade, sofrimento e a maneira como enfrentamos nossas dores.

Nos primeiros versos, a repetição de expressões como “passo a passo”, “passarinho” e “canarinho” cria um ritmo quase infantil, lembrando cantigas populares. Entretanto, por trás dessa leveza, existe uma reflexão sobre a dor e as tentativas de superá-la. O passarinho surge como símbolo de liberdade, delicadeza e esperança, enquanto o canarinho parece representar a capacidade de transformar o sofrimento em poesia.

Ao longo do poema, o eu lírico procura disfarçar suas emoções e seguir a vida em seu próprio compasso. A expressão “No meu passo encanto a dor” sugere que, mesmo diante das dificuldades, é possível encontrar na imaginação, na sensibilidade e na arte uma maneira de conviver com o sofrimento.

A última estrofe revela a essência filosófica da obra:

Sou apenas personagem, Vivo apartado de mim, Vivenciando uma viagem Sem começo, meio ou fim!

Esses versos apresentam um questionamento sobre a identidade e o sentido da existência. Ao afirmar que vive apartado de si mesmo, o poeta sugere uma distância entre aquilo que somos verdadeiramente e os papéis que desempenhamos diante do mundo.

“Personagem” é uma poesia brasileira contemporânea que une musicalidade, simbolismo e reflexão existencial. Um poema sobre as máscaras da vida, a busca pela própria identidade e a capacidade humana de transformar a dor em beleza.

A obra convida o leitor a uma pergunta: quantas vezes, ao longo da vida, precisamos interpretar um personagem para esconder aquilo que realmente sentimos?

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