CONFISSÕES DA
VELHA PRINCESA – A CRUZ DE PEDRA

            Desfrutando de sua melhor idade, a Princesa do Litoral
palestrava com sua irmã mais velha, Cananéia a plebéia, quando surgiu um
assunto que era quase um segredo de família, o porquê da decadência do reino.
            – Sabe Myriam Eleonora, nunca entendi esse fado cruel que
a persegue! Falou Cananéia.
            – Querida irmã mais velha, gosto que ao se referir a
minha Pessoa Real, me tratem por Princesa, pois fora do ninho familiar, ninguém
imagina que meu nome é Leonora…
            – Maninha mais nova! Seu nome não é Leonora, seu nome é
Eleonora…
            – Quem melhor do que eu para saber do meu nome! Meu nome
é Leonora…
            – Tudo bem Eleonora! Somos garotas da terceira idade, não
vamos brigar por insignificâncias. Você reparou como minha cidade está
progredindo? Ruas limpas… Sem Dengue… Temos uma maternidade para acolher os
novos cananeanos e um velório para um último e digno adeus aos que aqui
viveram.  
            – Néia querida! Estou notando que você jamais superou o
ciúme doentio em relação ao testamento de papai Portugal.
            – Oh… Oh… Oh… Mais de quinhentos anos se passaram e
você acha que devo esquecer-me da pilantragem? Da armação?
            – Irmãzinha! Não existiu armação. Eu era a bela, a
inteligente da família, por isso herdei tantas terras…
            – Tão inteligente que foi perdendo… Perdendo…
Perdendo.
            – Mas ainda tenho muito… Tenho a fabulosa Juréia…
            – Sim! Mas nosso irmão Peruíbe já está de olho nela…
            – Estou pouco me lixando! Meu passado fala mais alto…
            – Acorda Eleonora! Sacode a poeira… Dá a volta por
cima…
            – Não posso maninha! Simplesmente não posso…
            – Irmã Princesa! Não consigo entender… Você sempre teve
e tem tudo para vencer. Sei que você é batalhadora, mãos limpas, boa
administradora… Lembro de você jovem e feliz… Com um futuro esplêndido, mas
depois do aparecimento da Cruz de pedra, tudo mudou… Livre-se da Cruz e quem
sabe os bons tempos voltarão!
            – Se tem uma coisa da qual nunca consegui me livrar foi
da fatídica Cruz de pedra…
            – Parece que foi ontem! Aquele português a trouxe de
navio e construiu uma pequena capela no Icapára… Chegaram os piratas, você
mudou para o sitio atual e levou a Cruz de pedra para a nova igreja… Quando a
riqueza surgiu e um imponente santuário foi erigido, a Cruz foi jogada nos
subterrâneos do novo templo… Veio o progresso, o ouro, os engenhos, os navios
e o reconhecimento do mundo através de diplomas e honrarias…
            – É verdade! De repente, não mais que de repente,
retiraram a Cruz de pedra dos subterrâneos e a colocaram numa capela na beira
do Valo… O Valo Grande começou a desmoronar e a Cruz de pedra foi salva e
escondida… Mas, o estrago estava feito e começou a decadência…
            – Tem lógica! Houve uma pequena melhora depois disso… A
família estava certa de que você voltaria a brilhar, mas a Cruz de pedra reapareceu
encimando um pedestal na orla do mangue e foi aí que o apelido de “Cidade lá
tinha” pegou de vez…
            – Nem me lembre! Perdi o Posto da Marinha, a Santa Casa,
a Maternidade, o Banco do Brasil e começou a derrocada fatal…
            – Princesa! Tudo vai melhorar… Fui informada de que a
Cruz de pedra desapareceu do pedestal a beira do mangue. Quem sabe a levaram
para longe! Agora é um tempo de recomeçar… Um tempo de Pré-sal… Um tempo de
realizações.
            – Ah! Cananéia, minha doce irmã mais velha. Você não sabe?
Eu fui tombada! Sou um patrimônio federal e vou viver das glórias do passado…
Agora não tem mais como evitar meu fim… A Cruz de pedra venceu… Está na
Praça central!
            – Oh! Eleonora… Oh! Pobre Princesa do Litoral… Oh!
Maninha.
Gastão Ferreira/2011

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