BRINCADEIRA DE MENINO

            Era apenas um menino ajoelhado a margem do regato do
tempo espiando a eternidade. Ele concebeu que a pequena torrente juntar-se-ia a
um rio e a outro e a outro até chegar ao oceano, o destino de todos os rios. O
menino criou o mar universo. Inventou que a água era formada de moléculas e que
trilhões de trilhões de moléculas formavam o existir.
            Imaginou que cada molécula era um sol com pequenos átomos
ao seu redor chamados planetas e muitos planetas possuíam vida inteligente, animais,
pássaros e árvores. Nestes mundos existiriam pessoas para transformar os sonhos
em realidade. O menino sorriu, viu o primeiro homem que ousou erguer a face
para as estrelas, o homem que trocou a árvore pela caverna, o coletor, o
semeador, o construtor de cidades.
            Assistiu a tentativa de Ícaro e a impossibilidade de
voar, a construção da torre de Babel e a multiplicação dos idiomas, a adoração
do sol, da lua, das forças da natureza, o chamado divino gritando no coração
dos homens. Os sacrifícios a Baal, a Zeus, a Jeová. O sangue inocente dos
animais em oferenda ao Criador de todas as coisas.
            Conheceu Amom-Rá, Mitra, Isis e Osíris, Crono, Júpiter, Obatalá,
Átis, Odin, Orumilá, Tupã, Dionísio, Oxalá, milhares de altares de milhares de
deuses. Assistiu a morte de Sócrates, o nascimento da filosofia, a formação dos
grandes impérios. Galileu absolvido e Giordano Bruno condenado, a queima de
Joana D’Arc e sua santificação pelos mesmos que a amaldiçoaram. Notou que as
fogueiras da Inquisição assassinavam quem ousava pensar e questionar. Que as
grandes Cruzadas e as guerras religiosas negavam a fraternidade universal.
            O menino sonhou com o homem que compartilhava. Com o que
tinha fome de justiça, com o que defendia o fraco do forte, com o que amava os
pequenos seres da natureza. Chorou com Francisco de Assis, cantou com Orfeu,
riu com Carlitos.
            Assustado com tudo que idealizou tentou apagar seu sonho
em água, fogo, terremotos e maremotos. Ainda não sabia que sua mente era uma
mente criadora, que o simples ato de pensar dava forma as idéias, construindo
uma realidade tão eterna quanto ele próprio. Era um garoto solitário, o
primeiro, o único e o último ente a ser formado pela ordenação do caos
primitivo, possuidor de todo o conhecimento. Estava apenas brincando, dando
vida a matéria de que são feitos os sonhos. Seu nome era Deus!
Gastão Ferreira/2011

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