Pão & Circo
Desde o
começo do mundo, o pão e o circo andam de mãos dadas; dois estranhos que por vezes
se confundem com irmãos. Tivemos o pão do conhecimento com Sócrates na Grécia,
Akhenaton no Egito antigo, Giordano Bruno na Idade Média, e muitos outros que com
desvelado amor tentaram salvar o homem de si mesmo; os sábios através da
ciência, os santos através da religião, e algumas poucas pessoas diferenciadas,
por meio do exemplo.
O circo
esteve presente na história do homem desde a abdução da Serpente por Satanás,
para tentar Eva e ferrar com Adão. Nas danças eróticas das Salomés da vida, e
que no final exigiam como pagamento a cabeça de alguém. Com Nero e Calígula, o
circo foi elevado à categoria de arte, e o homem nunca mais se libertou do
fascínio da ilusão, pois o riso também tem o seu preço.
Dona Dita do
Porto, mulher estudada, bem de vida enquanto teve saúde, e que devido a
fatalidade perdeu as duas pernas, e sobreviveu por birra aos reveses da sorte; professora
de alfabetização nas horas vagas, lutou contra tudo e contra todos por
melhorias no bairro Porto do Ribeira, encaminhou dezenas de drogados para
recuperação, crianças para adoção, velhos desamparados para asilo, ajudava
carentes na compra de remédios, dividia o pouco que tinha com estranhos,
trabalhava pelo seu povo; mulher desbocada, politizada, arrumou encrenca com
muita gente metida a bacana. Uma fera feroz de alma macia e coração de manteiga
derretida.
Dona Vilma
da Vila, mulher sem estudo, excelente mãe de muitos filhos; saúde de ferro, não
oxidava nem com as muitas cervejas. Viveu contente todos os dias de sua vida,
muitos risos, muitas gargalhadas, muitos amigos. Por onde passava era só
alegria, uma figura que marcou época com sua brejeirice.
O Pão &
o Circo, Dona Dita & Dona Vilma; à primeira vista duas mulheres muito
parecidas, mas totalmente diferentes no conteúdo. Cada uma delas marcou
presença no livro da vida de uma forma desigual, ambas deixaram suas marcas,
suas saudades, seus desafetos e seus fãs. O tempo vai passando e elas irão
fatalmente para o esquecimento, como foram para o total olvido muitos de nossos
cidadãos que marcaram com seu existir a nossa cidade; quem não lembra do Zé
Carlos da farmácia? Uma vida inteira dedicada ao próximo e nem sequer foi
lembrado para ter o seu nome num Postinho de Saúde na zona rural.
O povo quer
homenagear a Dona Vilma, quer uma rua com o seu nome. Nada contra! O riso
fácil, o palavrão, o Circo é parte do nosso dia a dia, mas e o Pão? Quem vive
sem o pão? O que fala mais alto, a fome ou o riso? Com fome o riso não brilha.
Na Princesa o pão e o circo andam de mãos dadas; dois estranhos que teimamos em
achar que são irmãos, mas não são.
Que Dona
Vilma da Vila seja lembrada, temos a Travessa Capitão Dias que pode mudar de
nome sem ofender ninguém, mas que Dona Dita do Porto não seja esquecida; bem
que podiam dar o nome de Dona Dita do Porto aquele pequeno triângulo onde está
a Estátua do Pescador, que aliás, fica bem em frente à casa onde ela viveu.
Gastão
Ferreira/2018

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