O meteoro
         O
barulho foi infernal, mil vezes mais alto do que o do carro que anuncia trinta
ovos por R$10,00; cem vezes o som de um escapamento aberto no silencio das três
horas da madrugada. A cidade inteira acordou apavorada; – “Fim dos tempos!
Jesus voltou.”, clamavam os evangélicos. “Os reptilianos chegaram, temos novos
senhores!”, escreveu Dandão Sujão no facebook.
 
         O
estrondo foi às duas horas da manhã, e ninguém mais dormiu. Era noite alta e a
população inteira foi para fora de casa, pois achavam que um terremoto atingira
a Princesa, e todos sabiam que nesta hora, a primeira providência era sair de
casa. Em busca de notícias, o povo, se dirigiu à Praça da Matriz.
         Na
Praça a maior muvuca; gente chorando, gente tocando violão, gente dançando, gente
pedindo dinheiro para comprar pão com todas as padarias fechadas. Gente sendo
gente, e gente fingindo ser gente. Um pseudo líder popular, que acreditava ser
um formador de opinião, amado pelo povo, e que obteve perto de quarenta votos
para vereador, na última eleição, gritava; – “Onde está o homem? Cadê o homem?
O homem tem que dar uma explicação…”, um grupo de crentes, aplaudiu o orador;
– “Aleluia, irmão… Que Jesus se apresente!”
         Parecia
Festa de Agosto; ninguém sabe de onde surgiu de uma hora para outra, tantas
barracas e tantos vendedores ambulantes. Era barraca de pastel, água de coco,
cerveja, suco, refrigerante, lanche, pipoca… Muitos namoricos, paqueras,
pessoas se perguntando; – “Como pode! O mundo acabando, e essa gente se
divertindo. Que será que aconteceu?”
         Quando
o dia clareou, as autoridades apareceram. O povo ali reunido e pedindo
explicações; – “Dá um tempo pessoal! Vamos realizar uma reunião para discutir o
problema e o valor das horas extras, mas antes vamos tomar um café reforçado,
pois acabamos de acordar… Por favor, aguardem novos comunicados de nossas
excelências.”
         O
povo ali, no maior sufoco, e as excelências comendo, comendo, comendo, e no
prédio em que estavam, chegavam entregadores das melhores doceiras, padarias,
lanchonetes, pizzarias. Os sem grana babando de fome, barriga roncando, só
espiando de longe as autoridades devorando os lanches e morrendo de inveja. Os
com grana consumindo o que havia nas barracas… O dia clareando, e a vida
pedindo passagem.
         Tem
coisas que não tem explicação; Ditinho Bagre, menino esperto, morador próximo a
Fonte do Senhor, chegou aos gritos, informando que o campo de futebol tinha
desaparecido, e no lugar do estádio, estava um imenso “furum”, uma pedra caída
do céu foi quem formou a cratera. Não me perguntem como ninguém mais viu o
meteoro caindo; acima informei que existem coisas que não tem explicação.  
         Não
foi um dia normal na Princesa, o povo esperando o comunicado das excelências,
alguns duvidando das informações de Ditinho Bagre, e a chuva começou, e foi
caindo… Caindo… O maior toró despencando, alagando tudo, acumulando lixo
nas bocas de lobo, a água descendo da montanha, enchendo o buraco aberto pelo
meteorito, formando um piscinão. A chuvarada só parou ao meio-dia.
         As
autoridades pediram mais um tempo para as devidas explicações; era a hora do
almoço, e todos eles iriam comer no novo point da cidade, o restaurante árabe
“Al Mossar”, e experimentar as deliciosas sobremesas que faziam a fama do
local. O povo faminto se dirigiu ao local da queda da pedra do céu.
         Inacreditável!
Caiçara, não é fácil. Quando quer, acha solução para tudo, eta gente criativa! Centenas
de barracas; três bares, cinco quiosques, aluguel de jet-ski, aluguel de
caiaque, vara de pesca, colete salva-vidas, um tobogã para as crianças,
carrinho de churros, milho verde, algodão doce, pipoca, comida baiana, mineira,
cananeiana…  Um senhor point turístico
surgiu de uma hora para outra, e bem no centro histórico da Princesa.
         Viva
o meteoro! A solução para o Mangueirão.
Gastão Ferreira/2018
          
           
        
                                                 
               

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