O desaparecido
         Com
quase quinhentos anos de existência, poucas histórias escabrosas deixaram de
acontecer em Iguape; isso sem contar com a parte de nossa longa herança
indígena. Mais de mil anos de causos e lendas urbanas, todas anteriores ao
descobrimento.
         Nos
tempos de dantes, muitos nativos desapareciam; eram comidos por onças, picados
por cobras venenosas, raptados por tribos inimigas e vendidos como escravos, ou
escravas sexuais para aldeias distantes.
         De
cada cem desaparecimentos, apenas três tinham um final feliz. Segundo um estudo
dos historiadores caiçaras, é provável que existam iguapenses vivendo em outros
planetas, pois o que não falta são relatos de abdução por alienígenas.
         Muitas
donzelas desapareceram através dos séculos. Sem facebook, internet, televisão,
não tinham como serem localizadas, mas o tempo revelou que muitas delas fugiram
da cidade, deixaram a donzelice de lado e foram viver a vida na esbórnia, no
Rio de Janeiro.
         Um
fato marcante ocorreu no Ano do Senhor de 1613; Damião Antunes de Albuquerque
Penteado, filho mais moço do capitão da Marinha Real Portuguesa, Manoel Joaquim
Antunes de Albuquerque Penteado, desapareceu misteriosamente, e a vila de
Iguape entrou em polvorosa…  
         Se
existiu alguém macho na freguesia, foi o capitão Penteado. Conta a lenda urbana
que o homem comia manjuba crua, e que a parte da qual mais gostava do siri, era
a casca. Foi ele quem expulsou para terras de Espanha, o mancebo Eliswaldo.
Baniu o jovem Eliswaldo porque ele adorava lantejoulas, linhas, paetês e
agulhas; Lis, foi o nosso primeiro carnavalesco, numa época em que nem existia
carnaval.
         A
vila entrou em polvorosa porque, de boca pequena, todos sabiam que Dadá
Penteado tinha uma queda por Eliswaldo; seus encontros na Fonte do Senhor eram
famosos, e o povo, só para tirar uma da cara do capitão, ao se referirem ao seu
filho, sempre diziam; – “O garboso mancebo, Damião Antunes…”. Até o vigário
tirava uma casquinha; – “Seu filho, o varão Antunes…”
         O
desaparecimento de Damião Antunes causou rebuliço; Eleanora Aparecida Tereza
Abrantes, prometida de Damião, se descobriu grávida. Um escândalo! Só o capitão
Manoel Joaquim achava que a ex-donzela esperava um netinho seu. A rapariga
aproveitou a fuga do noivo para lucrar e se dar bem na vida, pois em segredo se
encontrava com o soldado Dito Deveras, e de veras pobre, e ele se ofereceu ao
capitão para se casar com Eleanora e assim a moça não passaria pelo vexame de
ser mãe solteira, e mal falada.
         O
capitão aceitou a oferta do soldado, e em reconhecimento ao nobre gesto de
casar com a mal afamada ex-noiva do filho, Dito Deveras foi promovido a
sargento. O casal foi o único à saber do verdadeiro paradeiro de Damião Antunes
de Albuquerque Penteado, aliás Dadá Penteado foi quem batizou o segundo pimpolho
de Eleanora e Dito, pois o primeiro, Damião Antunes de Albuquerque Penteado
Filho, foi criado e educado pelo avô rico, Manoel Joaquim Antunes de
Albuquerque Penteado.
         O
capitão Manoel Joaquim, transferiu o sargento Benedito Deveras para o Rio de
Janeiro, pois foi a maneira que arrumou para se ver livre de Eleanora. No Rio
de Janeiro eles encontraram Damião Antunes, que agora vivia feliz da vida com o
seu amado Eliswaldo, ambos aclamados pelas dondocas da capital como os melhores
modistas na cidade. Seu famoso ateliê “A manjuba feliz” marcou época no
império; Dadá e Lis formavam um alegre casal.
         Temos
muitos casos de desaparecimentos ainda sem solução, mês passado correu mais um,
mas essa é um outro causo que fica para uma próxima história.
Gastão Ferreira/2018
        

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