E por falar em Paixão…
         Iguape
permaneceu por séculos um tanto isolada, longe das grandes estradas que cortam
o Brasil de norte a sul, cidade costeira, a única via de acesso era por mar, e
rios. Na década de sessenta, o modernismo chegou e alguns caminhos de terra se
consolidaram, e na próxima década, a Rodovia Casemiro Teixeira foi pavimentada
e as portas da cidade abertas ao novo e crescente turismo rodoviário.
         Naquele
tempo, não tão longe de nós, praticamente não havia mendigos na Princesa do
Litoral; é verdade que eles apareciam as dezenas durante os festejos do Senhor
Bom Jesus, mas depois seguiam o rumo das outras festas religiosas, e só voltam
no ano seguinte. A cidade possuía seus próprios pedintes, a maioria pessoas com
problemas mentais, e que passam o dia sentados na Praça da Matriz, não
incomodavam ninguém; os caiçaras os chamavam de aluados.
         Aos
chegados de fora, aos serracimanos, não se dizia pedinte, mendigo, sem teto,
caminhante; tais pessoas eram conhecidas como “fugidos”. É por esse motivo que
“o homem do saco” era chamado de fugido. A cultura caiçara não estava errada,
pois as pessoas que naquele tempo abandonavam uma vida normal para viverem de
um modo diferente da maioria, eram fugitivos de si mesmos. Foi assim que um
fugido de nome Paixão, chegou à Iguape no final dos anos cinquenta.
         Chegou
num navio, ninguém prestou atenção no sujeito, carregava nas costas uma mochila
e dentro dela, um velho trombone; a noite ficou do lado de fora de um dos bares
situado no cais espiando o movimento, provavelmente não tinha dinheiro para a
cachaça. A cantoria estava animada; viola caiçara, violão, cavaquinho… E de
repente o som de um instrumento diferente… Um trombone! O estranho foi
convidado à fazer parte do grupo.
         O
fugido se enturmou e por um bom tempo fez parte da vida noturna da cidade.
Quando o governador Adhemar de Barros e a esposa, Dona Leonor chegaram para
participar da primeira novena ao Bom Jesus, a mulher do governador, conhecida
como “a rainha do chocolate”, foi brindada com um “solo” de trombone pelo
fugido Paixão. Meses depois, Dona Leonor Mendes de Barros mandou um belíssimo
presente ao músico, um trombone novinho em folha e com uma dedicatória em
letras dourada.
         É
raro um fugido se radicar em um lugar em definitivo. Paixão fez muitas amizades
na cidade, ninguém jamais soube os motivos que o levaram para os caminhos, para
as lonjuras de si mesmo e da família. Numa tarde, embarcou no navio Apolo I,
que transportava um carregamento de bananas para Santos. Muita gente na despedida,
ele ficou na cidade por seis anos, mas era chegada a hora de novas andanças;
Paixão pediu ao capitão do navio que o deixasse subir na parte mais alta da
embarcação…
         Tarde
de verão, céu azul, vento leste soprando sobre a Princesa do Litoral; início
dos anos sessenta, nenhum som vindo dos raros carros, apenas o trinar dos
pássaros, o imenso lagamar ainda sem o atual manguezal. Paixão sobe no lugar
mais alto do navio, pega o companheiro trombone e começa a tocar “Saudades de
Iguape”, o navio se distancia do cais, à tarde caindo, o vento leste soprando,
a música vibrando no ar chegava praticamente para toda a cidade, tão pequena
naquela época. O navio já passara da Caverna do Ódio, e ainda se ouvia os
acordes; foi assim que o fugido Paixão se despediu da Princesa, e nunca mais se
soube algo sobre ele.
Gastão Ferreira/2018
        
          

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