“Durma com os anjos,
presidente.”
                Os quinhentos anos da Princesa foram inesquecíveis; o ano de 2038 ficará
para a história. Do acampamento “Rose Noronha”, encarregado do “boa noite,
Presidente”, partiram os Sem Terras, e se juntando aos ativistas do acampamento
“Marisa Letícia”, encarregado do “bom dia, Presidente”, vieram todos, andando e
cantando, em direção a Cadeia Municipal.
         Tudo começou no ano de 2018, quando alguns notórios petistas
da cidade, conseguiram que o ex-presidente Lula, preso por corrupção e outros
delitos em Curitiba, fosse transferido para uma cadeia no Vale do Ribeira. É
verdade que nenhum dos petistas envolvidos na transferência obteve sucesso nas
urnas, mas em compensação, para a nossa cidade, quanta diferença!
         Três hotéis cinco estrelas, vários restaurantes de comida
típica, de fama internacional, abriram filiais na Princesa do Litoral. Nada de
comida caiçara! Os points eram de comida cubana, venezuelana, comida árabe.
Bares servindo a legítima vodca russa, tequila, cachaça de grife, e muita
caipirinha.
         Um aeroporto internacional e um porto marítimo foram
presenteados à cidade, por um país africano; um mimo em retribuição aos
serviços prestados pelo ex-presidente aos amigos tiranos da África. O bairro do
Rocio foi totalmente remodelado, graças ao aeroporto; todas as ruas asfaltadas
e as casas reformadas gratuitamente.
         Dizem que a tal transferência foi um santo remédio; os
desafetos do prefeito da época, estavam tão envolvidos na transferência que
pararam de culpar o homem por todos os males do município, e criaram um novo
slogan; – “Enquanto o homem trabalha e atrapalha, nós fazemos a diferença.”
         Realmente fizeram a diferença, a cidade tinha emprego pleno,
até os pedintes entregavam panfletos de “Lula livre” aos milhares de turistas
que chegavam diariamente à cidade, e ganhavam R$50,00 e um “vale-mortadela”.
Mas, como nada é perfeito, sempre havia quem reclamasse; e os moradores
antigos, os legítimos filhos da terra, como sempre se achando os donos do
pedaço, reclamavam, e como reclamavam, e com razão.
         Os hotéis cinco estrelas viviam lotados; diárias caríssimas,
só quem podia se hospedar neles eram os dirigentes partidários, ativistas de
movimentos sociais, senadores, deputados federais, líderes de governos
socialistas, mas como essa gente toda não trabalhava e vivia dos impostos pagos
por todo o cidadão honesto, gastavam horrores e não davam caixinha. Os hotéis
empregavam os filhos da terra; salário mínimo, não pagavam hora extra, e
descontavam os atrasos.
         Centenas de ônibus, largavam os turistas próximo a Fonte do
Senhor. Dali, eles se espalhavam pelo Centro Histórico, e arredores; um imenso
corredor formado por barracas, unia a Fonte ao lagamar, eram milhares de
barracas, uma Festa de Agosto permanente.
         Sem chilique da fiscalização, tudo era permitido; nas
barracas se vendiam desde inocentes beijinhos, cafunés, até faça amor, não faça
guerra. Também vendiam lanches, prato feitos, doces e salgados. Barracas com
ciganas e cartomantes previam o futuro, os ladrões faziam a festa, e os
pedintes continuavam à pedir, e a impedir que as pessoas andassem livremente
nas ruas.
         De todo o país chegava diariamente milhares de
cestas-básicas vindas de todos os Estados da federação, um presente à cidade
que acolhera de braços abertos a raça de desocupados que infestava o país.  Os ativistas dos movimentos dos Sem Tetos, Sem
Terras, Sem Noção, Sem Trabalho, Sem Saúde, Sem Educação, Sem Futuro e Sem
Estudo, agora, todos reunidos na cidade-prisão do chefe, precisavam comer, e
comer de graça, é óbvio, pois nunca produziram nada na vida.
         Comiam, bebiam, papavam a sobremesa, e depois se deitavam
nas praças, na orla do Valo, no lagamar. Os mais saidinhos mexiam com as
garotas passantes, os tímidos observavam, e os espertos comiam quietos e faziam
mais futuros ativistas entre as árvores da beira do mangue.  
         Foi assim que a Princesa comemorou seus 500 anos de vida. A
festa foi no bairro de Icapara. Dos 75.000 habitantes da cidade, apenas 200
eram da velha-guarda, filhos da terra, descendentes de pescadores artesanais, e
foram eles que participaram da festividade na antiga vila, mãe da cidade.
74.800 pessoas, todos ativistas políticos, todos dependente de sindicatos e
movimentos sociais, viviam na cidade em 2038. Os nativos não aguentaram a
muvuca, e foram embora para Curitiba.
         O bairro do Icapara está a 12 quilômetros do centro da
cidade, mesmo desta distância se pode ouvir diariamente às 6 da manhã, os
gritos de “Bom dia, presidente!”, e às 18 horas, um “Boa noite, presidente!
Durma com os anjos.”, eita lasqueira!
Gastão Ferreira/2018
        
        
                  
        

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