DITINHA GIGLIO
Meu nome é Memória; sou a guardiã da história
do homem. Estou presente desde o momento em que o primeiro ser pensante ergueu
os olhos para as estrelas e se perguntou:- Quem sou?
do homem. Estou presente desde o momento em que o primeiro ser pensante ergueu
os olhos para as estrelas e se perguntou:- Quem sou?
Sou o arquivo de tudo o que existe, de tudo
que pensa, de tudo que vive, acompanho cada criatura do berço ao túmulo. Eu sou
a Memória e conheço Ditinha Giglio há 102 anos, e partilhei de todos os seus
sonhos. Lembro de seu pai Floramante Regino Giglio, comerciante, dono do
engenho de arroz que ficava onde é hoje a pizzaria Canal na Beira do Valo,
político, duas vezes prefeito, filho de imigrantes italianos, teve quatorze
irmãos e foi capitão da Guarda Nacional. O homem mais rico de Iguape nos
primórdios do século XX. Recordo a mãe
de Ditinha, Maria do Carmo de Toledo Giglio com seus oito filhos e dos dois que
sobreviveram à primeira infância.
que pensa, de tudo que vive, acompanho cada criatura do berço ao túmulo. Eu sou
a Memória e conheço Ditinha Giglio há 102 anos, e partilhei de todos os seus
sonhos. Lembro de seu pai Floramante Regino Giglio, comerciante, dono do
engenho de arroz que ficava onde é hoje a pizzaria Canal na Beira do Valo,
político, duas vezes prefeito, filho de imigrantes italianos, teve quatorze
irmãos e foi capitão da Guarda Nacional. O homem mais rico de Iguape nos
primórdios do século XX. Recordo a mãe
de Ditinha, Maria do Carmo de Toledo Giglio com seus oito filhos e dos dois que
sobreviveram à primeira infância.
Lembro Ditinha estudando inglês, das aulas de
piano, das serestas, das viagens ao Rio de Janeiro que demoravam cinco dias. No
primeiro dia o vapor saído de Iguape navegava o rio Ribeira até Registro e por
lá pernoitávamos. No segundo dia ainda de vapor chegávamos a Juquiá e a noite
cantávamos, fazíamos serestas e a felicidade era cúmplice de nossas inocentes
brincadeiras juvenis. No terceiro dia era o mesmo trem até Santos e no quarto
dia também de trem alcançávamos São Paulo. Não havia estradas e de São Paulo ao
Rio de janeiro mais doze horas de trem.
piano, das serestas, das viagens ao Rio de Janeiro que demoravam cinco dias. No
primeiro dia o vapor saído de Iguape navegava o rio Ribeira até Registro e por
lá pernoitávamos. No segundo dia ainda de vapor chegávamos a Juquiá e a noite
cantávamos, fazíamos serestas e a felicidade era cúmplice de nossas inocentes
brincadeiras juvenis. No terceiro dia era o mesmo trem até Santos e no quarto
dia também de trem alcançávamos São Paulo. Não havia estradas e de São Paulo ao
Rio de janeiro mais doze horas de trem.
Bons tempos, tempos felizes… Geraldo
saudável, Ditinha jovem… Geraldo único irmão sobrevivente formara-se em
contabilidade no Rio de Janeiro e passou a estudar Direito no Largo São
Francisco em São Paulo… Eu lembro Geraldo afastando-se de mim, apagando da
mente as lembranças, os sonhos e se perdendo por caminhos desconhecidos.
saudável, Ditinha jovem… Geraldo único irmão sobrevivente formara-se em
contabilidade no Rio de Janeiro e passou a estudar Direito no Largo São
Francisco em São Paulo… Eu lembro Geraldo afastando-se de mim, apagando da
mente as lembranças, os sonhos e se perdendo por caminhos desconhecidos.
Lembro dos lampiões de gás, dos bois pastando
na Praça São Benedito, dos bailes, teatros e clubes… Da revolução
Constitucionalista de 1932 e Ditinha como voluntária da Legião Brasileira de
Assistência. Lembro da Iguape de outrora, dos passeios na Fonte, dos muitos
amigos, de seu noivo falecido e dos sonhos perdidos.
na Praça São Benedito, dos bailes, teatros e clubes… Da revolução
Constitucionalista de 1932 e Ditinha como voluntária da Legião Brasileira de
Assistência. Lembro da Iguape de outrora, dos passeios na Fonte, dos muitos
amigos, de seu noivo falecido e dos sonhos perdidos.
Recordo Ditinha funcionária pública, leitora
voraz, soltando a voz no coro da igreja da matriz e lembro Ditinha ao
entardecer. Suas lembranças são minhas! Hoje levo comigo seus sonhos, seus
fracassos, suas vitórias e juntas nos afastamos do alpendre de sua casa Terra,
e olhamos a Praça São Benedito e pela última vez visitamos o passado e corremos
crianças pela praça vazia de sonhos e rimos e choramos.
voraz, soltando a voz no coro da igreja da matriz e lembro Ditinha ao
entardecer. Suas lembranças são minhas! Hoje levo comigo seus sonhos, seus
fracassos, suas vitórias e juntas nos afastamos do alpendre de sua casa Terra,
e olhamos a Praça São Benedito e pela última vez visitamos o passado e corremos
crianças pela praça vazia de sonhos e rimos e choramos.
Eu sou a Memória, o arquivo da vida, eu não
minto, eu não invento… Eu anoto e recordo. Hoje apago essa pequena chama-vida
na grande fogueira em que nos consumimos, em que nos purificamos das vaidades,
em que transformamos nosso personagem em herói ou vilão… Benedicta de Toledo
Giglio, uma amiga querida, alguém que amou, chorou, cantou e viveu… Última
sobrevivente de um poderoso clã do passado, hoje sem vaidades, sem sonhos, se
despede dos muitos amigos… Sentada a seus pés eu recordo… Eu sou a Memória,
e estamos de partida (29/10/1916 – 08/11/2018), agora seremos para sempre,
apenas saudade.
minto, eu não invento… Eu anoto e recordo. Hoje apago essa pequena chama-vida
na grande fogueira em que nos consumimos, em que nos purificamos das vaidades,
em que transformamos nosso personagem em herói ou vilão… Benedicta de Toledo
Giglio, uma amiga querida, alguém que amou, chorou, cantou e viveu… Última
sobrevivente de um poderoso clã do passado, hoje sem vaidades, sem sonhos, se
despede dos muitos amigos… Sentada a seus pés eu recordo… Eu sou a Memória,
e estamos de partida (29/10/1916 – 08/11/2018), agora seremos para sempre,
apenas saudade.
Gastão Ferreira/2018
Gastão Ferreira começou a publicar seus textos aos 13 anos. Reconhecido por suas crônicas e poesias premiadas, suas peças de teatro alcançaram grandes públicos. Seus textos e obras estão disponíveis online, reunidos neste blog para que todos possam desfrutar de sua vasta e premiada produção.