Uma carona para o Saci
         Furado
é o nome que se dá em Iguape/SP ao canal que une dois rios. Foi no furado entre
o rio Ribeira e o rio Peropava que o causo ocorreu há muito, e muito tempo. Seu
Totó Bitu, sitiante e pescador, homem temente a Deus, conhecedor dos segredos
que envolvem os seres que protegem as matas e os rios, remava a sua bateira
através do furado.
         Alma
encantada pela natureza, Seu Totó admirava a perfeição dos ninhais, o salto do
Robalo, a pesca dos Biguás, o vai e vem dos passarinhos; uma brisa soprava
trazendo o perfume das matas. Céu azul sem nuvens, e de repente tudo silencia.
Da mata próxima vem um grito; – “Tô aqui! Tô aqui!”
         Dentro
do furado, calmaria total. Na margem do canal as árvores vergavam, um
corre-corre por entre as folhagens, debanda de pássaros, disparada de animais
silvestres; – “Tô aqui! Tô aqui!”
         Seu
Totó Bitu sabia de muitas histórias, as visagens por ali não eram novidade; um
lobisomem, que não sabia nadar, se afogara no furado. A carcaça de uma Mula Sem
Cabeça apareceu boiando nas águas do canal, coisas estranhas aconteciam no
furado. Sem medo do desconhecido, Seu Totó gritou bem alto; – “Tô aqui! Tô
aqui!”
         Bastou
gritar e a bateira sofreu um solavanco, parecia que havia alguém a mais dentro
do barco, gravetos e folhas secas voavam ao redor da embarcação. A curiosidade
venceu o temor, e Seu Totó espiou o fundo do barco. Um Saci estava refestelado
no banco de passageiros; – “Para onde vai, Seu Totó Bitu?”
        
“Vou a caminho de Iguape…”, gaguejou Seu Totó.
        
“Estamos nessa! Também vou na mesma direção.”, disse o Saci, e ficou invisível
dentro de um pequeno rodamoinho.
         Foi
assim que pela primeira vez um vivente deu carona à um ser encantado, e até
aonde se sabe, Seu Totó Bitu foi o único pescador a carregar um Saci e viver
para contar a história.
Gastão Ferreira/2017
   
        

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