Um barraco inesperado

         Madame
Márcia Cristina de Oliveira Barros reclamou da não visita de nosso ilustre
prefeito ao bairro, após as chuvas torrenciais. A estrada rural ficou
intransitável por dois dias, e o homem nem aí para quem ficou ilhado. Seu Zico
Limpeza foi muito grosseiro com madame Cricri; – “Se o prefeito visitar cada
bairro após um mísero temporal, não vai sobrar tempo para mais nada; deixa o
moço trabalhar!”
         Dona
Márcia Cristina não vai sossegar enquanto não descolar um cargo de assessora;
todo o dia ela dá uma geral no bairro. A mulher não sossega! Na semana passada
arrumou uma confusão com um casal de turistas. Bastou os passeantes declararem
que vieram conhecer os confins e a dondoca virou uma fera; – “Não admito que se
refiram a este solo sagrado usando este termo, para mim pejorativo, confins. O
bairro tem nome, e não vou permitir que avacalhem com ele.”
        
Moreno apoiou madame Márcia; – “Mim também não aceita zombaria com o belo nome
do nosso bairro, mim concorda com Dona Cricri.”
        
“Cala a boca Tarzan! Mim não existe.”, gritou a professora Rita Cansada.
        
“Vai catar coquinhos, sua velha caquética, e não grite com migo!”, respondeu
furioso o Zé Moreno.
        
“Com migo também não existe, seu burro! Respeite a professora.”, berrou o
menino Duda Pelado, que está na terceira série.
         A
prima da mestra Rita Cansada, Dilma Machochô, deu uma rasteira no Moreno. As
garotas da melhor idade se armaram e partiram para a paulada. Os meninos da
banda “Cheiro de mato queimado” defenderam o Zé Moreno. O casal de turistas
ficou apavorado; – “Vai sobrar bala perdida! Mulher, faça o favor de trancar os
cachorros no carro e vamos dar o fora daqui; pode dizer adeus aos confins.”
        
“Aqui a única bala perdida que existe, é a que uma inocente criança perde ao
pedalar a sua bicicleta.” Disse Dona Márcia Cristina.
        
“Estou vendo!” exclamou o turista, se trancando no carro.
        
“Volta aqui, seu covarde! E se falar mal do nosso bairro, vai se dar mal, hem.
Aqui só tem gente educada!” berrou Seu Dito Banguela, e jogou uma pedra na
porta do automóvel.
         Eu
e meu primo Barrabás ficamos com vergonha, a tal de vergonha alheia; nós
estávamos no maior papo com o casal de cães dos turistas, uma bela e charmosa
família de caninos, eles eram só elogios, e mostravam aos dois filhotes a
beleza do bairro. As crias ficaram aterrorizadas com o barraco armado por
madame Márcia Cristina de Oliveira Barros e diziam aos pais; – “Confins nunca
mais! Nunca mais!”
Omisso, um cão rural morto de vergonha.
Gastão Ferreira/2017   
        
        
          

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