Princesa disfarçada

         A
Princesa caprichou no disfarce; no dia anterior, sua serva, arrumadeira, e
quase amiga Odalisca, comprou um belo e chique vestido em uma das numerosas
barracas da Festa do Senhor Bom Jesus para camuflar Sua Majestade. Lisca também
adquiriu um imenso chapéu, a fim de dificultar a filmagem da Princesa por um
drone; segurança é tudo.
         Sua
Alteza, com seus quase quinhentos anos de existência, irradiava alegria; era
tão raro sair do Palácio Real. De óculos escuro, espiava os romeiros cansados
da longa caminhada, os cavalos bem tratados, as barulhentas motos, as
bicicletas e as charretes… Bateu uma fominha;
        
“Lisca, querida! Vamos comer um pastel no carrinho do Arai…”
        
“Alteza! Não seria melhor aproveitar a festa, e provar um pastel diferente; são
tantas opções.”
        
“Calada, guria! Nada disso. Eu só como o pastel do Arai, e minha preferência é
o de carne moída…”
        
“Desculpe, majestade! É que o carrinho do Arai não está no local de sempre, e
eu não sei onde esconderam o japonês…”
        
“E o Manoel do milho verde, sabe onde está?”
        
“Também não sei…”
        
“Que falta faz meu secretário Josephus! Espia, Odalisca! Parece que está
ocorrendo uma briga feia, ali na baixada…”
        
“Nem pensar em chegar mais perto, estamos disfarçadas de humildes romeiras, e
Vossa Majestade pode sofrer assédio… Fique calma, Alteza!”
        
“Olha o vexame, Lisca! Uma velhota caiu de nádegas no chão. E como grita! E
como xinga! Que vergonha para a Princesa do Litoral…”
        
“Mas a Princesa é a senhora! Esqueceu?”
        
“Estou morta de vergonha! Uma garota da quarta idade, digo, da melhor idade, e
barraqueira…”
        
“Coisas de Festa de Agosto, Majestade!”
        
“Não, Odalisca! Coisa de quem não tem civilidade e educação… Quando penso que
as coisas estão melhorando, alguém estraga tudo; oh, vida!”
        
“Muita calma nesta hora, não sabemos o que aconteceu. Talvez um marreteiro deu
uns tapas na velha… Opa! Na loira da melhor idade…”
        
“Ela derrubou o carrinho do homem, ficou histérica… Nem pensou que é uma
representante dos organizadores do evento… Meu Bonje! Pobre reino que não
consegue sair da pindaíba moral…”
        
“Menos, Majestade! Menos.”
        
“Estou chocada!”
        
“Festa é assim mesmo, Alteza… Esta é a 370ª que acontece… Vamos ver as
barracas e aproveitar o bom tempo, vamos?”
        
“Não! Desgostei… Quero voltar ao Palácio Real, e só vou sair para participar
da Procissão do Senhor…”
        
“Procissão? Por que assistir a procissão?”
        
“Quero ver quem vai se estapear para carregar o andor do Santo… É fatal!”
        
“O que é fatal, Majestade?”
        
“Quem carrega o andor quer alguma coisa; quero me certificar de quem está
querendo aprontar com o povo…”
        
“Eu, hem! Vivendo e aprendendo…”
Gastão Ferreira/2017
        

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