O rapto da Princesa

         Nem
tudo foram flores na longa vida da Princesa do Litoral; quando jovem, ali pelo
Ano do Senhor de 1520, ela sofreu horrores nas mãos dos piratas. Naquela época
os flibusteiros costumavam saquear as vilas litorâneas, e a nossa princesinha,
recém chegada à Vila de Icapara, foi raptada.
John
Novasky, o terror dos mares, tomou de assalto a vila; quarenta quilos de
farinha de mandioca, cinco capivaras defumadas, oitenta tainhas recheadas, vinte
robalos, dez mandis, foi tudo o que obteve com o saque, e teve muita sorte,
pois o vilarejo se preparava para a primeira Festa do Parati, que no futuro
seria conhecida como a grande e famosa Festa da Tainha do Icapara, e a despensa
estava cheia de mantimentos.
         Os
piratas, não satisfeitos com a pilhagem dos víveres dos caiçaras, levaram cinco
meninos, dois rapazes, e três donzelas como refém, e entre as mocinhas estava a
Princesa. John Novasky deixou bem claro; voltaria na piracema da manjuba. Piratas
adoram manjubas, e eles levariam toda a produção do peixinho, ou não devolveriam
os prisioneiros. Faltavam cinco meses para o início da temporada de pesca.
         A
Princesa, na flor da idade, conheceu o mundo; Rio Guaíba, Rio Del Plata, Rio
Uruguai, Arroio Chuí. Os piratas eram chegados à um rio, um riacho, um córrego,
não ancoravam nas cidades porque ainda não existiam cidades, apenas índios
peladões, e animais selvagens.
         A
vida da Princesa mudou da água para a cataia; pela manhã lavava o convés,
auxiliava na cozinha. À tarde remendava as velas da embarcação, e à noite
servia bebida aos marujos. Também dançava a dança dos sete véus, distribuía
sorrisos, mas não beijava na boca, pois beijar era pecado, e engravidava,
qualquer donzela bobinha sabia muito bem disso.
         Foi
nesta terrível viagem que conheceu Josephus, aquele que futuramente seria seu
secretário particular, melhor amigo, e confidente; foi Josephus quem salvou a
Princesa. Como isso ocorreu? Josephus descobriu o segredo dos piratas, e contou
para a Princesa. A mocinha chantageou John Novasky, e ele apavorado, imediatamente
mandou içar as velas em direção à pequena vila caiçara, para devolver os
reféns. Pediu mil e uma desculpas aos moradores; mil aos habitantes, e uma à
Princesa, à quem presenteou com uma cruz de pedra vinda da Europa, e alguns
fogos chineses, algo completamente desconhecido dos nativos do Novo Mundo.
         Foi
assim que a garota fugitiva de Cananéia ganhou o título de Princesa. Graças à
ela os piratas do capitão John nunca mais atacaram o vilarejo. A Princesa foi a
primeira à soltar foguetes em Pindorama, costume que permaneceu até os dias
atuais. O segredo dos piratas fica para outras história; aguardem.
Gastão Ferreira/2017
          
        
          

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