O patuá

         Tempos modernos; na atualidade é uma
raridade encontrar alguém com um ramo de arruda atrás da orelha, ou com uma
faixa preta, que chamavam de “fumo”, no braço direito, sinal de que uma pessoa
da família falecera. Outra coisa que está difícil de se ver, é gente usando
patuá.
         Antigamente era há muito tempo passado,
hoje antigamente significa de cinco a dez anos. Então, nosso causo não é assim
tão antigo; vamos à história.
         Na cidade de Iguape a política sempre
foi um divisor; a criança já nascia cocho ou berne, tamanduá ou formiga. O
líder da facção era endeusado, e aprontasse o que aprontasse era apontado como
a “alma viva” mais honesta da cidade.
         Não sei se Seu Dito Bisonho era cocho
ou berne, mas desde moço o Ditinho possuía um patuá, um escapulário que
carregava junto ao coração. Nem Maria Rita sua namorada de infância e depois
esposa e companheira de vida sabia o que havia dentro do patuá; a lenda urbana
dizia que era uma grande e valiosa moeda de ouro.
         Os filhos chegaram, Seu Dito envelheceu,
enviuvou, ficou dependente; nem na hora do banho ele deixava alguém retirar o
famoso patuá. Com mãos trêmulas se agarrava ao objeto, ficava encolhido,
parecia ter medo de que o roubassem. Quando morreu, um dos filho, o mais
bobinho, retirou e escondeu o patuá, queria a moeda de ouro só para si.
         Foi durante o velório que deram por
falta do patuá; parentes e amigos se questionavam! Onde estava o objeto de
desejo e curiosidade de todos? O povo queria saber para qual santo Seu Ditinho
Bisonho dirigia suas preces. O filho ladrão, bastante envergonhado, buscou o
patuá, e frente à todos começou a abrir a relíquia.
         Descosturou as bordas, abriu o saquinho
de pano encardido pelo tempo. Todos de olho comprido só observando; – “É uma
moeda de ouro.”, disse Dona Mariquita Perna Torta. “Que nada! É o mapa de algum
tesouro enterrado.”, falou Pedro Penca. E o filho tirando os pedaços de
papeis… No final um retrato amarelado, o retrato do grande líder, do
salvador, do chefe que comandou a cidade por tanto tempo. Santa sacanagem! Quem
diria! Seu Dito Bisonho era partidário dos…. E todos tinham a certeza que ele
era dos… Foi aí que a briga começou; cochos e bernes acabaram com o velório,
o corpo nem passou pela igreja, foi direto para o cemitério, e só os filhos
acompanharam o enterro.
         Como a história é verdadeira, e a
memória é curta; quem me contou o causo não revelou o nome do santo, mas tudo
aconteceu na Vila Garcez. Quem sabe alguém ainda lembra do acontecido, afinal,
o antigamente não é tão antigo assim.
Gastão
Ferreira/2017  
          

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