O papagaio Zé Moreno

         Aqui
no sitio está a maior paradeira; o Pastor Silas se recuperando da surra que
levou no carnaval, madame Márcia Cristina de Oliveira Barros com o olho roxo,
as meninas da melhor idade, todas emburradas por terem sido chamadas de velhas
corocas. Eu, o Gato Capado e meu primo Barrabas fomos passear no mato, e
encontramos alguém muito especial.
         Estávamos
espiando uma briga entre um gavião e um bem-te-vi, e torcendo pelo gavião que
sempre apanha, quando ouvimos uma voz humana; – “Glória, glória aleluia…
Glória, glória aleluia…” pensamos que era Dona Cotinha Gambá em um novo surto
de crendice, mas não era. Era um papagaio.
        
Moreno se apresentou; fugiu da cidade grande. Criado desde filhote por Dona
Zenóbia, nada sabia sobre a vida real, um temporal o levou para longe, estava
totalmente perdido. Muito falador, foi contando o seu drama sem ninguém
perguntar nada; – “Um ladrão entrou na casa de mãe Zenóbia, roubou o celular da
velhota, e abriu a minha gaiola. Voei até um pé de abacate e fiquei
observando… A mãe correu atrás do pilantra, depois foi até a delegacia e deu
parte. O ladrão apareceu com um monte de papéis informado que era louco
varrido, e a coisa ficou por isso mesmo, não podiam prender um doido, mas o
doido podia roubar todo o mundo… Vá entender os humanos!”
         Dona
Zenóbia era pobre, uma serva do Senhor, aposentada e catadora de latinhas de
cerveja nas horas em que não estava orando e louvando. Era contra bebidas
alcoólicas, cigarros, drogas e palavrão, mas catava, numa boa, as latinhas de
bebidas, coisas do demônio; não consigo entender os humanos.
         Primo
Barrabas, criado pelo Pastor Silas e esposa, se empolgou ao saber que Zé Moreno
era um papagaio evangélico e tentou uma conversa cristã com o visitante. Eu e
Gato Capado fomos espiar o ninho de um lagarto, e ao voltarmos não acreditamos
no que ouvíamos; Barrabas falando palavrões! O louro Zé Moreno era um mestre em
palavrões e aprendera com Dona Zenóbia, a crente. Repreendemos Barrabas,
coitadinho! Se arrependeu na hora. Ensinei o caminho de volta para a cidade, ao
Zé Moreno. Bicho safado! Me mandou tomar naquele lugar e disse que jamais
voltaria a morar numa gaiola, o seu negócio era encontrar uma linda papagaia e
pecar, pecar, e pecar. Chocados voltamos para casa. Não consigo entender alguns
bichos, e muito menos os humanos.
         Paramos
na vendinha do Seu Alfredo, hora de filar carne. Ele vende espetinhos, e sempre
ganhamos as gordurinhas, aquelas que os humanos não conseguem engolir. Levei um
susto, na gaiola estava o louro Zé Moreno contando piadas para os fregueses.
Fiquei indignado e perguntei o porquê daquela palhaçada, e ele explicou; –
“Combinei com o Seu Alfredo, as coisas estão difíceis, muita paradeira…
Observe que o bar está lotado, pois todos querem ouvir piadas de papagaio;
comerei do bom e do melhor, e Seu Alfredo prometeu comprar duas amigas para
mim… Glória, glória aleluia… Glória, glória aleluias…”
         É
complicado! Não entendo como alguém pode trocar a liberdade por uma prisão. Eu
só quero ser livre, não me amarrar no que os outros pensam, não aderir a nenhum
grupo, amar a vida e ser digno de merecer os cuidados de Tupã, o pai de todos,
que nada pede e tudo nos dá.
Omisso, um
cão rural.                                                                          
Gastão Ferreira/2017         

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