O despertar no Paraíso

         Quando
o primeiro homem saiu das mãos do Criador, ele não sabia quem era, de onde
viera e nem onde estava; paisagem magnífica, muita fruta madura, água
cristalina, ar puro, bicho pulando de galho em galho, bicho correndo na relva,
pássaros coloridos contra um céu extremamente azul; o homem tentou puxar
conversa, que nada! Cada ser vivo falava de um jeito diferente, uma verdadeira
Babel; – “Pronto! Inventei uma palavra, Babel! Que será que é uma Babel?”
pensou o homem.
         – “Hei! Adão…” alguém chamou.                                              
        
“Quem é Adão?” perguntou o homem.
        
“Você! Você é Adão, um bicho homem…” respondeu a voz.
         Adão
olhou para os lados, nada! Viu um bicho pendurado num galho, e ficou na
espreita; – “Foi você que disse o meu nome, não foi?”
        
“Adivinhão! Tão fofo; inteligente o bicho homem! Terá um grande futuro…”
disse o bicho da árvore.
        
“E você, quem é?” perguntou Adão.
        
“Ainda não tenho um nome; é você que é o rei da criação. Pode me dar um nome?”
        
“Sei lá! Você tem uma cara de cobra…”
        
“Cobra! Eu?”
        
“É, cobra, víbora, serpente, áspide…”
        
“Calma! Calma! Gostei da serpente… Pode me chamar de serpente, eu deixo.”
         Foi
uma longa conversa; a serpente explicou muitas coisas para o Adão, tão
inocente, o guri! Deu uma aula sobre higiene básica, e deixou bem claro que um
dos deveres de Adão era dar nome à tudo que existe.
         Adão
passou meses e meses apelidando os animais; leão, elefante, tigre, macaco,
jacaré, cavalo, nomes fáceis de pronunciar. Depois veio hipopótamo, tamanduá,
jaguatirica, nomes um tanto complicados, e vieram os difíceis; pterodátilo,
ornitorrinco, tiranossauro, dinossauro…
         Com
as árvores foi o mesmo; maçã, pera, banana, araçá, goiaba, ameixa, butiá,
abacate, e aí a coisa ficou feia; guajuvira,
Cajarana, sequoia, eucalipto… E foi
assim que Adão adquiriu um excelente vocabulário. De tanto correr para lá e
para cá, dando nomes à tudo que via, deu uma enorme canseira, e pegou no sono.
Acordou com uma senhora dor no corpo, parecia que lhe tinham arrancado uma
costela; – “Minha costela! Minha costela! O que aconteceu? O que aconteceu?”
        
“Oh! Quer parar de gritar.” Disse uma voz macia e aveludada.
        
“Opa! Quem é você, criatura?”
        
“Não sei! Cheguei agora…”
        
“É bem parecida comigo; tem alguma coisa à mais, tem alguma coisa à menos, mas
é quase igual…”
        
“Quase igual não é igual! Podes me dar um nome?”
        
“Vou chamar você de Suzana… Não! Cristina? Não! Raimunda? Não…”
        
“Resolve logo, eu quero um nome bem bonito…”
        
“Já sei! Eva… Seu nome será Eva, e você é a primeira bicho mulher.”
        
“Nossa! Eu sou uma mulher? Que chique! Algo mais que eu deva saber?”
        
“Sim! Temos uma amiga, aqui no paraíso, uma serpente falante…”
        
“Vamos fazer o seguinte; primeiro me explica o que é paraíso, depois o que é serpente,
e depois o que significa falante…”
         Eva
decorou alguns nomes, e de outros esqueceu fácil, por exemplo; “guanxuma” e
“guabiroba”. Adão avisou Eva para ter cuidado com a serpente; – “Olha lá, hem!
Uma cobra que fala não é bom sinal. Vai saber se não está a fim de aprontar com
a gente…”
        
“Que nada, amor! Eu sou uma mulher esperta, e vamos desfrutar por muitos e
muitos anos deste paraíso… Não se preocupe.”
         E
foi assim até o dia em que Eva conheceu pessoalmente a serpente, mas esta é uma
outra história…
Gastão Ferreira/2017

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