O bicho folharedo

         ZiZi,
o mico, andava aperreado; inverno dos brabos, pouca comida na mata. Sua mãe
estava passando por apuros, carregava nas costas o filho mais novo o ZeZé João,
um folgado e faminto filhote que não parava de gritar. Tempo frio, nem uma
fruta madura nos pés de araçás, goiabas, pitangas, frutas do conde e muito
menos a deliciosa banana.
         O
macaquinho ainda lembrava da última visita que fizera ao sitio do Vovô Velho;
quanta comida gostosa! Na varanda uma grande mesa, e na mesa frutas e mais
frutas. Ah, se pudesse pegar algumas e dividir com a sua mãe! O problema era a
espingarda. Apesar de velho, o homem era bom de mira; que o diga o macaco Zé do
Mato, pois até hoje ele sente as dores do tiro que o atingiu.
         O
bicho homem é muito complicado; sabe ser suave, sabe ser feroz, bom e mau, e
mistura tudo com o medo da própria sombra. Macaco é diferente; sobe em árvores,
pula de galho em galho, foge de onça e do bote certeiro de uma cobra. ZiZi
sabia que o bicho homem tem pavor do desconhecido, e bolou um plano para obter
comida grátis na casa do Vovô Velho.
         Primeiro
achou uma colmeia de abelha jataí, ela não tem ferrão, foi fácil tirar o mel.
Lambuzou o mel por todo o corpo, e foi em direção à casa do Vovô. Parou no
taquaral e rolou sobre as folhas secas, todo o seu corpo se cobriu de folhas;
virou um bicho horrível, medonho, quase uma assombração.
         Era
a hora do café da tarde, a família toda na varanda. Quando avistaram a criatura
foi um Deus nos acuda; – “Se tranquem em casa! Corram! Fujam!”, gritaram as meninas
Leda e Ieda, enquanto arrastavam o irmão mais novo, o Gustavo, para a cozinha.
Vovô ouvindo o alarido pegou a espingarda, e saiu em defesa de seus netos;
quase morreu de susto, deu uma tremedeira, ficou apavorado, e pela primeira vez
errou um tiro.
         ZiZi
fez a festa, pegou do bom e do melhor, e só por pirraça soltou um grito de
vitória bem na cara do Vovô Velho, e depois correu para a mata; Zezé João ia se
empanturrar de tanta comida, e a sua mãe teria um pouco de sossego na vida. Na
casa do sitio, Vovô Velho tentava explicar para as netas Goreti e Iolanda, e
também para as gurias Leda e Ieda, que jamais vira um bicho tão estranho; –
“Que bicho era aquele vovô?” perguntou o netinho Gustavo, tremendo de medo.
        
“O bicho mais brabo que existe, meu neto; o bicho folharedo!”
         Foi
assim que surgiu a lenda do Bicho Folharedo, e ele só apareceu uma vez no sitio
do Vovô Velho, mas eu, minhas irmãs e meu irmão nunca nos esquecemos dele. Um
viva ao Bicho Folharedo, e as horas felizes em que todos nós reunidos no
gramado de nossa casa, sob a luz das estrelas, pedíamos ao nosso pai Barroso,
que contasse novamente a história do Bicho Folharedo, e ele jamais se negou de
contar… Contar e recontar.
Gastão Ferreira/2017        

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