Fafá de Belém e a Princesa

         A Princesa do Litoral abriu o envelope,
e deu um grito; – “Não acredito! Não acredito!”. A criadagem acudiu apressada,
Josephus, seu secretário particular e carnavalesco oficial do reino, foi
chamado; – “O que foi Alteza! Alguma notícia trágica? Uma nova calamidade? Qual
o motivo de seu brado?”
– “Josephus! Você não vai acreditar. Recebi um convite
para a Festa da Tainha de Icapara…”
         – “É um ótimo sinal, significa que
finalmente os icaparanos esqueceram as desavenças…”
         – “Que desavenças, Josephus? Eles são
sangue do meu sangue…”
         – “Sim, mas jamais esqueceram que foram
abandonados aos piratas e mosquitos pólvoras pela senhora…”
         – “A História mente à esse respeito!
Não foi bem assim; eu era muito jovem, uma guria sem noção. Os tempos eram
outros, Icapara não passava de algumas casas de taipa… Mamãe Cananéia era
poderosa, e simplesmente me abandonou no meio daquele manguezal, e tudo culpa
do Bacharel. Eta velho safado!”
         – “Vossa Alteza conheceu o Bacharel de
Cananéia?”
         – “Um traste aquele tranqueira!
Engambelou os nativos, fez acordo com os espanhóis, brigou feio com São
Vicente. Era unha e carne com o Rei de Portugal, ganhou um morro de presente, o
outeiro do Bacharel.”
         – “São águas passadas, majestade!
Finalmente Vossa Alteza voltará ao vosso primeiro lar…”
         – “Foram dias felizes, Josephus! Tirando
as mutucas, as muriçocas, cobras venenosas, onças e piratas, não tinha do que
me queixar…”
         – “É verdade! Mas abandonou a vila de
mala e cuia e criou Iguape…”
         – “Segurança, Josephus! Segurança. Sei
que meia dúzia de caiçaras não gostaram da mudança, e deu no que deu, mas tudo
já passou; olha aqui o convite para a Festa da Tainha.”
         – “Nossa! Fafá de Belém fará uma
apresentação…”
         – “Icapara está podendo…”
         – “Será que ela sabe o que é uma
tainha?”
         – “Esta festa ficará na história, e eu
quero estar bem ao lado da famosa cantora…”
         – “Acho um tanto difícil; repare no
número do vosso convite… A senhora ficará no meio do povo.”
         – “Não senhor! Ainda sou a Princesa do
Litoral…”
         – “Os tempos mudaram, majestade! E
prepare o bolso, pois a tainha é bem carinha por lá…”
         – “Está dizendo que terei de pagar? Que
ousadia!”
         – “Só os convidados especiais não
pagam, e o seu convite é um convite normal, e lembre-se; nada de chiliques!”
         – “Ah! Eu queria tanto dar um abraço na
Fafá de Belém…”
         – “Nem pensar! Novos tempos, novos
convidados, boca-livre é para quem pode, e não para quem merece…”
         – “Eu quero morrer, Josephus!”
         – “Bobagem, Princesa! Todos eles
passarão, mas a Princesa do Litoral continuará sendo linda e maravilhosa…”
         – “Gostei, Josephus! Odalisca! Prepare
a minha veste mais bonita… Vou arrasar nesta festa!”
Gastão
Ferreira/2017

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