Dalva Camargo

“Fazendo a diferença”

         Esta
história chegou de longe, tem o perfume das terras africanas, tem o cheiro da
maresia de portos distantes. Os antepassados dos Camargo foram trazidos da
África e vendidos como mercadoria no Porto de Iguape, suas raízes são
profundas, estão entranhadas há muitos séculos no Vale do Ribeira; os Camargo
são descendentes de uma das quatro famílias de escravos que ficaram em Iguape
após a princesa Izabel assinar a Lei Áurea em 13 de maio de 1888. Jordão de
Camargo era apenas um menino no dia da libertação.
         Esta
não é uma história triste; é uma história de heróis. Gente que semeou, estudou,
construiu, trabalhou, suou, evoluiu e colheu; é uma história de superação. Jordão
provavelmente nasceu livre, mas seus pais foram escravos, seu filho Manoel de
Camargo, nasceu em 1912 e marcou sua época. Mais conhecido como Maneco Indaiá,
destacou-se nos esportes, pedreiro de qualidade, com seu amigo Laurito foram os
responsáveis pelo início do calçamento das ruas de Iguape, na gestão do
prefeito Zé Mathias; ele é o pai de nossa homenageada, Dalva Camargo.
         A
mãe de Dalva, Avelina Farias de Camargo, nasceu no bairro da Enseada, sitio
Pinheiro. Aos nove anos veio estudar na cidade, ficando sob a responsabilidade
de Dona Ita Balaio, e só saiu da sua casa aos vinte e dois anos para se casar.
 Dalva nasceu em 1964, no bairro Canto do
Morro, seus familiares possuíam uma imensa chácara onde criavam porcos, bois,
cavalos, galinhas e outros animais domésticos. A menina cresceu cuidando dos
animais; quando sua mãe Avelina, conhecida como Maria de Maneco, lhe contava
como conseguiu resgatar um cachorro das garras dos homens da carrocinha, a
guria chorava de dó. Até o início dos anos sessenta funcionários da Prefeitura
Municipal recolhiam os cães de rua, usavam uma rede para encurralar o animal, e
depois uma corda para imobilizá-lo. Jogavam numa carroça com grades e levavam o
bicho para os lados do antigo matadouro; os donos podiam resgatar o seu cão, os
que não eram resgatados eram sacrificados, e segundo a lenda urbana, viravam
sabão.
Dalva
estudou no colégio Veiga Junior, e se formou  Técnica em Contabilidade e depois em
Magistério; trabalha há vinte e quatro anos como Auxiliar de Papiloscopia
Policial, é a responsável pelo setor de identificação da Delegacia de Polícia
de Iguape. Irmã de Benedito Camargo, Maria de Lourdes e Manoel de Camargo
filho, é a mãe de Daniela, pedagoga e coordenadora da Creche Joana Pedrá. Dalva
fez parte do grupo que está na origem da Gaari (Grupo de apoio aos animais de
rua de Iguape). Hoje não faz parte do grupo, mas continua dando assistência aos
animais abandonados, parte de seu salário é para ração e remédios dos muitos
animais pelos quais ela zela.
         O
planeta Terra começou num paraíso, dizem que Eva pôs tudo à perder; ela culpou
a serpente, mas acabou sendo expulsa do Éden, e Adão seguiu a mulher. Deu no
que deu; toda esta bagunça. Adão estava no topo da cadeia alimentar, era o rei
da criação, o responsável por seus irmãos menores, os animais. Os animais
também são criaturas divinas, eles também possuem o sopro chamado vida. Poucas
pessoas pensam sobre tal questão. Porém, não é só com animais que Dalva se
ocupa.
         Dalva
é uma pessoa que entende essa obrigação moral que temos com todos os seres
vivos, continua até hoje se preocupando com crianças carentes, herança dos
tempos de professora; presta auxílio à idosos, e aos necessitados da cidade. Sua
preocupação vai além dos animais irracionais com os quais dividimos o planeta
Terra. Ela não mede esforço para minorar as dores alheias, sabe que toda a dor
é dor, que abandono é abandono. Dalva Camargo faz a diferença; uma guerreira
cuja única arma é o amor, o amor pela criação. Quem conhece a Dalva Camargo
jamais a esquece; um viva para Dalva Camargo! Ela faz a diferença.
Gastão Ferreira/2017

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