Ostentação

         Hoje
conversei com Barrabás, meu primo e cão do Pastor Sillas, para ele tudo é feio,
tudo é pecado. Não pode ver alguém bebendo uma pinga que já rosna; – “Pecador!
Amarra Jesus.”. Ele mordeu o garoto Pancrácio, um abobadinho de seis anos, só porque
o menino disse que viu um urubu. No fundo, no fundo, Barrabás não passa de um
senhor fofoqueiro.
         Foi
ele quem me contou que madame Marcia Cristina de Oliveira Barros, Dona Cricri,
não vai mais pedir votos no sitio, disse que a dondoca ganhará estourado na
cidade grande. A esperta não dará carona para ninguém, nada de pagar conta de
luz em atraso, dentaduras nem pensar, comes e bebes jamais. Achei estranho!
Qual será o golpe?
         Madame
não quer se estressar, disse Barrabás, gente de sitio dá uma de jacu, mas comem
pelas beiradas. Seu Fidélis perdeu as terras na última eleição, e só obteve
dois votos, o dele, e o de Maria Florzinha, nem a esposa votou nele. Têm
pessoas que ficam na pior, vendem até a casa da mãe, pois campanha eleitoral é
coisa cara.
         Dona
Cricri tem certeza que obterá mil e poucos votos, e praticamente sem gastar
quase nada. Na semana passada já conquistara mais de duzentas famílias. Astuta,
contrabandeou quarenta sacas de feijão do Paraguai, trocou por manjubas
salgadas, os paraguaios adoram manjuba, um produto caro e raro por lá. Cada
saco tem sessenta quilos; quarenta sacas são dois mil e quatrocentos quilos.
Cada quilo um voto. Já ganhou! Já ganhou! Já ganhou!  
         Dona
Márcia Cristina de Oliveira Barros não é de dar tapinhas nas costas, nem de dar
trela para desocupado, mas na cidade grande por onde passa todos a cumprimentam
sem exceção; gente pobre e gente rica. Donos de restaurantes nem cobram as suas
refeições, os pedintes que guardam carros não riscam o seu luxuoso automóvel,
até a protegem dos outros mendicantes que querem dinheiro para comprar pão.
Dona Shirley Campos, uma das mulheres nobres da cidade, ofereceu-lhe um jantar;
reuniu as socialites, comida ostentação, vinhos caros, tinha até champanha, e a
única coisa exigida de quem participou, foi um votinho. Quem se comprometeu,
ganhou um quilo de feijão.
         Foi
essa história sem pé nem cabeça que Barrabás contou, ele não mente; mentir é
pecado. Faltam quatro meses para a eleição, muita coisa pode mudar. Dona Márcia
Cristina pensa que ilude o povo, que nada! O povo está calejado. Sabe muito bem
que o feijão de hoje comprará a esperteza de amanhã; a vista grossa para os
buracos das ruas, a falta de médicos, os carros zeros, as mansões.
         Se
eu fosse gente, e não cachorro, jamais trocaria o meu voto. O voto é a única
arma contra a safadeza, contra a corrupção. Melhor estudar direito em quem
votar. Hoje são centenas pedindo com humildade a sua atenção, amanhã nem um bom
dia lhe darão, temos exemplo disso de montão. Dona Cricri não sabe, mas ela já
perdeu a eleição.
Omisso, um cão sem cãodidato.
Gastão Ferreira/2016
        

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