Papai Noel chorou

         Mamãe
Noel chamou o marido num canto, e foi taxativa; – “Este ano meu velho, me faça
um favor, não entregue pessoalmente os presentes; tenho um mau pressentimento.”
         –
“Impossível, Mamãe! Recebemos milhões de cartinhas do mundo inteiro, as
crianças me aguardam, não posso decepcioná-las.”
         –
“Então, pelo menos me prometa que desta vez não passará por Iguape…”
         –
“Iguape? A terra da Princesa do Litoral, minha amigona. Qual a desculpa que
darei para não passar por lá?”
         –
“Sei lá! Invente uma. O trenó quebrou, as renas estão de greve, foram para o
Chile, qualquer desculpa serve, mas lembre-se; não passe por lá.”
         –
“Está me assustando! O que aconteceu com a bela Princesa?”
         –
“Homem não repara em nada mesmo! Não notou que nossa filha Eliana Cristina Noel,
a responsável por ler as cartinhas das crianças de Iguape, chora dia e noite?”
         –
“Achei que tinha brigado com algum duende, ela é tão sensível!”
         –
“Ela anda muito triste…”
         –
“E o que isto tem à ver com Iguape, a cidade é lá no outro lado do mundo?”
         –
“Em tempo de internet, tudo é perto! 99.9% das crianças de lá não receberão
presentes este ano…”
         –
“Como assim? Não estou entendendo, explique melhor.”
         –
“Os pais, tios, avós, parentes, amigos, estão sem receber salários há quatro
meses… Impossível comprar presentes!”
         –
“Agorinha mesmo, Noel Junior solicitou um trenó extra para Ilha Comprida, e
pediu um carrinho de mão para Iguape…”
         –
“O carrinho de mão é para levar os 0.1% de presentes para a cidade, os mimos
para os filhos dos mandantes de lá.”
         –
“Meu Bonje! Como explicar isto para as crianças carentes? Ficarão
inconformadas…”
         –
“O Bonje está vendo a situação, e nem ele achou uma solução…”
         –
“Então a coisa está feia mesmo! Eu gostaria de ler algumas cartinhas, talvez
encontre um meio de ajuda-las.” 
         Eliana
Cristina Noel, com cara de triste, entregou um saco de cartas para o Papai
Noel, e pediu; – “Papai, deixa eu ir até Iguape!”
         –
“Não inventa, Cristina! Nananã…”
– “Talvez eu
possa ajudar!”
         –
“Ajudar em quê, guria? Sem presentes vão é te xingar.”
         –
“Eu posso cantar na praça da matriz, jogar balas para as crianças, apresentar
uma peça infantil…”
         –
“Parece que bebe, Eliana! Não senhora, vá ajudar a sua mãe à matar os perus
para o natal, enquanto eu leio algumas cartas.”
         Noel
Junior encontrou Papai Noel bêbado, e aos prantos. No chão dezenas de cartinhas
infantis, nem quis ler, e nem tinha tempo, pois recebera um telefonema urgente
de Noel Sênior; – “Favor preparar mais cinco trenós extras para os presentes
das crianças de Ilha Comprida, use as melhores renas, e não passe pela ponte
para não ser assaltado.”
         Noel
Junior abraçou Papai Noel, e também chorou.
Natal/2016 – Gastão Ferreira

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