Parabéns Princesa
Dia
três de dezembro completei 478 anos de vida. Velha? Imagina! Ainda mantenho
este corpinho de 477, e a carinha de 476 anos. Olho-me no espelho, e cada ruga
tem um nome; os últimos doze anos fizeram a festa. Despenquei! Hoje estou um
trapo, mas prometo fazer uma repaginação, se Deus quiser neste ano que se
inicia.
três de dezembro completei 478 anos de vida. Velha? Imagina! Ainda mantenho
este corpinho de 477, e a carinha de 476 anos. Olho-me no espelho, e cada ruga
tem um nome; os últimos doze anos fizeram a festa. Despenquei! Hoje estou um
trapo, mas prometo fazer uma repaginação, se Deus quiser neste ano que se
inicia.
Com
o aniversário veio as lembranças, recordei a donzela que fui. Tempos felizes?
Não tenho certeza. Muitas brigas com mamãe Cananéia, com os castelhanos, com os
vicentinos, com os cretinos que rapinavam o meu ouro. Tudo isto sem contar os
ataques dos piratas, dos índios, dos nobres do império.
o aniversário veio as lembranças, recordei a donzela que fui. Tempos felizes?
Não tenho certeza. Muitas brigas com mamãe Cananéia, com os castelhanos, com os
vicentinos, com os cretinos que rapinavam o meu ouro. Tudo isto sem contar os
ataques dos piratas, dos índios, dos nobres do império.
Quando
tio João VI chegou ao Brasil, fugindo dos soldados franceses, fiquei famosa.
Uma súdita, aqui da freguesia, ensinou à Corte Real o sabor da comida caiçara.
Uma pena! Foi pobre, e voltou pobre, mas conseguiu seu intento; livrar o filho
da guerra.
tio João VI chegou ao Brasil, fugindo dos soldados franceses, fiquei famosa.
Uma súdita, aqui da freguesia, ensinou à Corte Real o sabor da comida caiçara.
Uma pena! Foi pobre, e voltou pobre, mas conseguiu seu intento; livrar o filho
da guerra.
Bons
tempos! A construção dos casarões, um belo porto, muita fartura; ouro nos
cabelos, vergonha na cara, festas, saraus, procissões. Os padres mandavam e
desmandavam, a igreja herdou muitas casas das beatas, mas só das solteironas.
Aquelas que espancavam os escravos, e depois rezavam, rezavam.
tempos! A construção dos casarões, um belo porto, muita fartura; ouro nos
cabelos, vergonha na cara, festas, saraus, procissões. Os padres mandavam e
desmandavam, a igreja herdou muitas casas das beatas, mas só das solteironas.
Aquelas que espancavam os escravos, e depois rezavam, rezavam.
Chorei
quando meu amado Pedro II foi embora, senti falta do carinho da Princesa
Isabel, a Redentora. Depois dei um tempo, e pensei; – “Por que tanto chororô?
Nem conheci a mulher! Que vão para o raio que os parta, e que sejam felizes.”
quando meu amado Pedro II foi embora, senti falta do carinho da Princesa
Isabel, a Redentora. Depois dei um tempo, e pensei; – “Por que tanto chororô?
Nem conheci a mulher! Que vão para o raio que os parta, e que sejam felizes.”
O
tempo passou lentamente, e eu trezentona, pra lá da melhor idade. Foi embora o
imperador, a família real, os nobres e nobretes, puras ratazanas sustentadas
com o suor da plebe. Ficamos livres dos comedores de impostos, dos comensais do
bom e do melhor, dos viajantes que passeavam com o dinheiro público, dos
corruptos, dos salafrários.
tempo passou lentamente, e eu trezentona, pra lá da melhor idade. Foi embora o
imperador, a família real, os nobres e nobretes, puras ratazanas sustentadas
com o suor da plebe. Ficamos livres dos comedores de impostos, dos comensais do
bom e do melhor, dos viajantes que passeavam com o dinheiro público, dos
corruptos, dos salafrários.
Chegou
uma nova raça de mandantes, a diferença? Não eram impostos pelo imperador, eram
escolhidos pelo povo. Meu Bonje! Sim, o Bonje já era o meu protetor fazia um
tempinho. Meu Bonje! Não consigo entender a plebe! Por que ela sempre escolhe
os piores? Oh gente para gostar de sofrer! Na verdade alguns dos eleitos
mereceram o meu respeito, não vou citar nomes para não constranger os larápios,
os sacanas, os politiqueiros. Nunca os esqueci! Lembram? Cada ruga da minha
face tem um nome, o nome deles.
uma nova raça de mandantes, a diferença? Não eram impostos pelo imperador, eram
escolhidos pelo povo. Meu Bonje! Sim, o Bonje já era o meu protetor fazia um
tempinho. Meu Bonje! Não consigo entender a plebe! Por que ela sempre escolhe
os piores? Oh gente para gostar de sofrer! Na verdade alguns dos eleitos
mereceram o meu respeito, não vou citar nomes para não constranger os larápios,
os sacanas, os politiqueiros. Nunca os esqueci! Lembram? Cada ruga da minha
face tem um nome, o nome deles.
Nestes
últimos quatro anos envelheci horrores; tristeza de mãe que não tem como
socorrer os filhos. Acredito, tenho que acreditar! Neste novo ano, a coisa
melhora. Os coronéis, os feitores, os índios e os piratas, os politiqueiros,
nunca me venceram. Tenho ao meu lado o povo que me ama e isto me basta; sou
feliz. Tomara que no próximo aniversário eu já esteja repaginada, vida de
Princesa não é fácil! Só é fácil em contos de fadas, mas para meu azar quase
todas as minhas fadas foram safadas; lembrem-se das minhas rugas, todas elas tem
um nome, e alguns deles são bem conhecidos.
últimos quatro anos envelheci horrores; tristeza de mãe que não tem como
socorrer os filhos. Acredito, tenho que acreditar! Neste novo ano, a coisa
melhora. Os coronéis, os feitores, os índios e os piratas, os politiqueiros,
nunca me venceram. Tenho ao meu lado o povo que me ama e isto me basta; sou
feliz. Tomara que no próximo aniversário eu já esteja repaginada, vida de
Princesa não é fácil! Só é fácil em contos de fadas, mas para meu azar quase
todas as minhas fadas foram safadas; lembrem-se das minhas rugas, todas elas tem
um nome, e alguns deles são bem conhecidos.
Gastão Ferreira/2017
Gastão Ferreira começou a publicar seus textos aos 13 anos. Reconhecido por suas crônicas e poesias premiadas, suas peças de teatro alcançaram grandes públicos. Seus textos e obras estão disponíveis online, reunidos neste blog para que todos possam desfrutar de sua vasta e premiada produção.