Os filhos do Saci

         Ah, a Iguape antiga! Cidade de quase
quinhentos anos, muitas coisas estranhas aconteceram por aqui, gente raptada
por Discos Voadores, por Sereias e Iaras; pessoas que viraram lobo Guará, e
foram morar no manguezal, mas que foram desencantadas graças as preces de uma
mãe piedosa. Cidade das mulas sem cabeças, cavalos fantasmas, boitatá, e saci.
         Romualdo cresceu medroso, menino
frágil, só conseguia dormir com um lampião aceso no quarto. Sua avó, Dona Mara,
tinha um fraco por histórias de lobisomens, e visagens; o guri, tão crédulo,
vivia apavorado. Criado com muito caldinho de manjuba, pirão de peixe, e banana
nanica, graças ao Bonje, sobreviveu.
         Amância não amava Romualdo, casou
obrigada pelo pai. Na verdade ela sonhava em casar com Maurício Tié, violeiro,
cantor, e ótimo dançarino, um moreno sem eira nem beira, e que passava as
noites em serenatas, e os dias piscando para as donzelas. Um moço galanteador,
o Tié; Amância jamais esqueceu a vez em que ele colheu uma rosa vermelha na pracinha,
e sorrateiro lhe ofertou a flor, com a frase linda que inventou na hora: – “Uma
flor para uma flor.”
         A vida de casada de Amância e Romualdo
era um calvário para a moça. Marido tímido, mal o sol morria, ele se trancava
no quarto. Coisas inacreditáveis começaram a acontecer; um lobisomem arranhou a
porta da casa, uivou no portão, assustou o cachorro. Uma visagem, coberta por
um alvo lençol, passou aos prantos na rua. Romualdo rezava, pedia proteção,
tremia de medo. Amância foi dura com ele: – “Da próxima vez que um ser infernal
tentar acabar com nosso sossego, eu vou dar um jeito.”
         O Saci assobiou três vezes, dito e
feito! Amância pegou um pedaço de pau, e foi atrás do safado. Voltou toda
estranha, trêmula, com os olhos brilhantes, tomou um banho, e dormiu feito um
anjo. Romualdo ficou agradecido, “eta mulher macho!”, pensou, estava protegido.
         Bicho safado o Saci, passou anos e
anos, apavorando o Romualdo. Teve semanas que compareceu quatro vezes, e sempre
Amância punha o tinhozinho à correr. Agora com três filhos, todos moreninhos,
Amância nem reclamava da desatenção do marido, ela parecia conformada, e feliz.
As crianças cresceram rápido, não gostavam da atitude da mãe, essa coisa de
sair atrás de assombração, não era o certo. Bisavó Mara também desaprovava o
neto Romualdo, e disse que ele deveria ao menos uma vez na vida, enfrentar a
realidade.
         Romualdo teve uma conversa séria com a
esposa, comprou uma espingarda, e avisou: – “Da próxima vez que este Saci sem
vergonha aparecer, darei um tiro no infeliz, então, nada de sair porta à fora
para afugentar o bicho.”
         O Saci assobiou, tossiu, gritou, e nada
de Amância aparecer para assustá-lo. Dentro de casa, Romualdo carregava a
espingarda, mataria o Saci; abriu a porta, o bicho estava no pomar, engatilhou
a arma, mas neste momento Amância estragou tudo, pois gritou; – “Fuja Saci, meu
marido está armado, e quer te matar.”
         O Saci nunca mais perturbou a vida do
casal. Romualdo perdeu o medo, passou a dar mais atenção à esposa, e aos três
filhos moreninhos, que agora ganharam uma irmã loirinha, a cara de papai
Romualdo, e quem será o padrinho da princesa? O amigo Mauricio Tié, casado com
Maria Dolores, e que nunca fez parte desta história.
Gastão
Ferreira/2016 
          

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