Os filhos da truta

         Foi o primeiro carnaval de Maria das
Graças. A mocinha mora na zona rural e seu pai trabalha num pesqueiro “pesque
& pague”; foram os peixes que influenciaram na escolha do nome do
bloquinho. A primeira opção foi “bloco do mandi”, mas lembraram que já existe um
outro bloco com nome parecido. A segunda escolha “bloco das piranhas” não foi
aceita porque poderia dar encrenca com as garotas de uma outra zona não rural.
Depois de muita conversa foi aceito “os filhos da truta” como o nome definitivo
para o pequeno bloco, se bem que nenhum dos participantes tenha visto uma truta
na vida.
         Maria das Graças, apelido Charlene, há
muito catava penas de aves para a tão sonhada primeira fantasia; não podia ver
um jacu que ficava seguindo o bicho pela mata até achar uma pena perdida. Bastava
a aproximação de Charlene para que os pássaros debandassem, todos temerosos de
ficarem pelados. A coleção era variada; pena de papagaio-da-cara roxa,
araponga, jacutinga, quero-quero, peru, avestruz e de muitas outras aves
exóticas e não exóticas.
         Passageira de primeira viagem, das
Graças colou pena por pena sobre papel jornal; conseguiu a duras penas fazer um
belo cocar, uma minúscula tanga e uma longa e estreita capa negra, só com penas
de urubu. A fantasia concluída e chegou o tão esperado Domingo de Carnaval.  
         Vinte e duas horas e a musa do carnaval
e apresentadora oficial do evento, Daniela Sanches, anunciou; – “Senhoras e
senhores, respeitável público… Bem vindos a maior festa de Momo do Vale do Ribeira…
É muito samba no pé minha gente… Muita alegria… Muita folia… Muito
ziriguidum…  É com satisfação que
apresentamos a estreia de um novo bloco… Com vocês “os filhos da truta” …
Simbora geeeente…”
         Charlene estava divina; uma sacerdotisa
maia? Uma deusa das águas meia peladona? Uma guerreira tupi-guarani? Os
crentes, aqueles que ficam orando e vigiando as sacanagens que ocorrem na
avenida do samba, ficaram embasbacados e o pior é que não poderiam comentar com
os irmãos, pois seriam expulsos do culto. As para lá da melhor idade com os
olhos rasos d’água se enxergavam jovens na jovem Charlene. Os tarados babavam e
as garotas acima do peso juravam que fariam uma dieta logo após o carnaval… Charlene
estava nas nuvens.
         E por falar em nuvens, começou uma
grande ventania e caiu o maior toró… A água dissolveu o papel e as penas
foram caindo uma por uma… Adeus cocar… Adeus negro manto… Adeus
tanguinha… E ali estava Charlene, morta de vergonha, frente ao respeitável
público… Peladinha… Pelada… Peladona… O mico do ano.
         Charlene ficou meses sem aparecer na
cidade e só na Festa de Agosto tomou coragem e deu o ar da graça. Veio de
vestido comprido e óculos escuros, mas foi reconhecida pela população e uma
menininha muito curiosa tomou coragem e perguntou: – “Você não é Charlene a
pelada? A “filha da truta?”
         – “Não querida! Meu nome é Maria das
Graças e moro num sitio.”
         Foi o primeiro e último carnaval de
Maria das Graças que anda pensando seriamente em matar um passarinho, um tal de
bem-te-vi… Toda a vez que a ave grita; bem-te-vi, bem-te-vi, das Graças
lembra do mico que pagou e murmura; – “Que vergonha! Meu Bonje.”
Gastão
Ferreira/2016

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