Os anéis da Princesa

         Ah,
o amor! Sentimento sem explicação lógica. Chega sem avisar, se apodera do
vivente, faz sorrir e faz chorar, dá confiança, põe estrelas no olhar, beleza
na mediocridade, luz na escuridão; uma vontade de ser bom, “Que seja eterno enquanto
dure”, disse o poeta.
         A
sina da velhota era se apaixonar por quem não prestava, provavelmente praga de
mãe. “Que seja efêmero, posto que é chama”, outra dica do poeta, que acertou em
cheio! Usada e abusada, carente; entregava o coração facim, facim. Pobre menina
rica! De menina não tinha nada, talvez a inexperiência.
         A
Princesa era assim, nasceu assim, vivia assim; quase uma Gabriela. A paixão não
persistia por mais do que quatro anos, algumas duraram menos; os amantes foram
pegos com a chave do cofre, e expulsos do trono, mas cheios de nove horas,
sempre que questionados ainda dizem amar a nobre dama.
         Uma
Princesa infeliz; mocinha brigou com a mãe, e foi viver noutra freguesia. Comeu
o pão que o diabo amassou; foi estuprada por coronéis, senhores de escravos,
piratas, donos de engenhos. Sofreu calada, foi saqueada, mas conservou os
anéis. Ah, os anéis da Princesa! Sonho de ostentação de muita gente que se diz
honesta.
         Estes
amores passageiros deixaram marcas profundas, mas pouco aprendizado; com quase
quinhentos anos, bem pouco aprendeu. Ainda se dá de corpo e alma à quem mal
conhece, e qual donzela desavisada se entrega à aventureiros.
         Nenhum
amante reclamou, todos enricaram à custa da Princesa; fazendas, prédios,
apartamentos, lojas em outras cidades, casas no exterior. A nobre dana sabia
das maracutaias, por vergonha calava; não passavam de garotos de programa os
tais cavalheiros.
         Chegou
a crise, acordou sozinha; quis morrer. Tentou se afogar no lagamar, não
conseguiu; o lagamar estava assoreado. Pensou em cortar os pulsos, desistiu;
poderiam levá-la para outra cidade, e no caminho roubarem seus anéis, pois o
pessoal da saúde há muito não recebia os salários. Sonhou em se jogar da torre
mais alta; a torre mais alta era a da igreja. Não! Suicídio nem morta.
         Esfarrapada,
mal amada, poucas eiras e beiras, passou alguns dias com os pedintes; esmolou
um Real para comprar pão, pediu comida, agasalho de marca, roubou celular,
guardou carros, na madrugada foi estuprada. Chorou, se achando a única culpada
pela negra situação… Adormeceu ao luar, e sonhou.
         “Mamãe
Cananéia foi uma boa mãe”, murmurou a Princesa no sonho; quando fugiu da casa
materna levou a maior parte das terras da velha. É verdade que o que aqui se
faz, aqui se paga, pois sentiu na pele o troco que seus próprios filhos lhe
deram. A filha mais moça, Ilha Comprida, agora é a joia da coroa.
        
“Por falar em joias, onde estão meus anéis? Sei que o safado não os encontrou.
Posso dar a volta por cima, tantas vezes já o fiz. Meu Bonje! Porque esta sina
de me apaixonar pela pessoa errada? Manda, Senhor, um nobre cavalheiro é tudo o
que vos peço; eu só quero ser feliz.”, acordou.
         Dormira
embaixo de uma moita na orla do lagamar, despertou sem o canto dos pássaros;
estranhou! Do manguezal um bando de alvas garças observava, marrequinhas d’água
espiavam, os bem-te-vis estavam calados, e os quero-queros aparentemente não
queriam nada. Urubus famintos analisavam a situação, um gavião chegou de longe,
e prestou homenagem, baixando a crista à outro pássaro. A Princesa ficou
encantada, amor à primeira vista; o pássaro ao qual todos prestavam vassalagem
era um tucano; belo tucano! Ave cheia de graça. No bico do tucano, os anéis da
Princesa. “Estou salva”, pensou a Princesa apaixonada… Quem viver, verá!
Gastão Ferreira/2016 
           
           
        

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