Sonho de pirata

         Todos
sonham. A menina sonha em casar, o menino em virar homem, o crente com o
paraíso, o velho em viver um pouco mais. Tem gente que sonhar em ser, e tem
gente que sonha com o ter. Bafo de Pinga sonhava com o ter; possuir ouro,
possuir o poder, não importava o preço à pagar, ele era corruptível e venal, e
estava à venda. 
Por vinte e
cinco anos, Bafo de Pinga, o pirata, se preparou para conquistar o vilarejo.
Disfarçado em bom moço conhecia cada cidadão; transportava velhos, mulheres e
crianças para portos distantes graciosamente. Pagava rodadas de bebidas nos
botecos, e também petiscos aos sempre famintos moradores do povoado.
         O
pirata era o sonho das garotas de programa, aquelas mal amadas, e que se trocam
por um lanche, uma cerveja, uma bijuteria barata, e que depois choram as
ilusões perdidas; as noitadas de Bafo de Pinga ficaram famosas na localidade, e
ocasionaram muitas separações litigiosas.
         Aprendeu
a profissão de rapinador com o melhor professor; o famigerado corsário Jujuy
Joio, o larápio. Assim, Bafo de Pinga foi conquistando espaço lentamente. Sem
estudo, sem educação, e sem escrúpulos, sonhava com o poder máximo; um dia
seria o flibusteiro mor.
         Tinha
consigo o mapa de muitos tesouros, e não via a hora de utilizá-los em proveito
próprio. Alardeava benfeitorias, e o povo de memória curta aplaudia sem atentar
que profissão de pirata não existe, e que o ouro do pirata era furtado de algum
lugar. O pirata era um mestre em dissimulação, e o povoado estava pronto para
mais uma vez ser saqueado sem dó nem piedade.  
         Dizem
as lendas urbanas que os habitantes do gracioso vilarejo, desde sempre tiveram
uma quedinha por tudo o que não presta; foi praxe se trocarem por ninharias,
depois, juntos & misturados se punham à reclamar da situação caótica do
povoado.
         O
pirata não sabe, mas as coisas mudaram; é verdade que ainda existem pessoas à
venda, jovens mais interessados em drogas e baladas do que no próprio futuro.
Velhos apegados a costumes antigos de compadrio, gente que passou a vida
vegetando, gente que jamais se realizou. 
Mas também existem jovens sedentos de mudanças, os que ainda acreditam
em honestidade e trabalho, e junto à eles todos aqueles cujos sonhos de progresso
morreram antes da realização pela maldade de outros corsários.
         A
ficha caiu; a população sabe que cada buraco de rua, que a falta permanente de
medicamentos, de transporte, de qualidade de vida, é devido as muitas
rapinagens das quais o antigo aprendiz de pirata se dedicou sem dó nem piedade
durante vinte e cinco anos. Bafo de Pinga jamais se apossará do povoado. Chega
de foguetes! Basta de enganação! O povo acordou.
         No
lagamar assoreado era impossível aportar. O barco pirata ficou à espera de
socorro, ninguém atendeu. Acabou o estoque de foguetes, a comida e a água a
bordo também acabaram. O barco e seus tripulantes soçobraram, o vilarejo estava
a salvo. Bafo de Pinga e seu bando partiram para o esquecimento definitivo; o
sonho do pirata naufragou.
Gastão Ferreira/2016    

Deixe um comentario

Livro em Destaque

Categorias de Livros

Newsletter

Certifique-se de não perder nada!