O pedágio

         Há
um bom tempo que eu não vou à Iguape, eu estou de castigo, e meu dono
preocupado. O cão Euzébio, do Seu Dito Prainha, foi passear na cidade e voltou
castrado; foi confundido com um cachorro de rua, e deu no que deu, seu apelido
agora é Euzébio Capado. Fui visitar o amigo para saber das novidades.
         Oba!
Vamos ter pedágio no sítio. Quem quiser nos visitar terá que pagar. A estrada
rural está quase intransitável, mas com o dinheiro do pedágio ela será
totalmente repaginada; os cinco carros que passam por aqui semanalmente,
deixarão uma boa grana. Quem não gostou da ideia genial foi o Seu Totó Inglês;
         –
“Se a moda pegar, estou lascado! A falência é quase certa; pedágio em cada
porteira de sitio, pedágio na entrada da cidade, pedágio para visitar a Ilha, e
eu vivo de vender produtos rurais; meu Bonje!”
         Dona
Cotinha Gambá, sensível igual secretária de escola, foi grossa e mal educada; –
“Só não vou apontar o caminho da rodoviária para o senhor, porque não temos
rodoviária aqui no sitio. Qual o problema de se criar um pedágio? Meu sobrinho
Zenon e minha neta Thais serão os cobradores do pedágio; sangue do meu sangue,
honestos feito vereador em final de mandato, terão vida mansa.”
         –
“Sua neta Thais não é a nova representante da realeza aqui no sítio?” Perguntou
Seu Totó, “a guria é bastante midiática, fez o maior barraco com a falta de
coleta de lixo, chamou a tevê para filmar, vestiu roupa de gari, chorou frente
as câmeras…”
         –
“Que nada! O Tucano não caiu na arapuca. Thais continua desempregada, mas não
vai desistir fácil de uma futura boquinha; quem viver verá!” Informou Dona
Cotinha.
         –
“Vou falar com o novo prefeito! Fomos colegas de prézinho, sou amigo de
infância do homem; não vai me negar nada.” Disse Seu Alfredo Pantera.
         –
“Seu Alfredo! O senhor não é filho de Seu Gildo do Pé da Serra?” Perguntou Dona
Marcelina.
         –
“Sim, nasci e fui criado no Pé da Serra! Qual o motivo da pergunta?”
         –
“Nada! Pensei que o senhor fosse de fora, um amazonense, só isso.”
         –
“Eu, hem! Cada vez mais gagá a Dona Marcelina.”
         Confesso
que nada entendi da conversa dos humanos, e fui até a casa do cão Euzébio.
Tadinho! Estava ganindo bem baixinho, e se lamentando; – “Logo agora que a
cadelinha Milady estava interessada por mim, acontece uma tragédia destas!
Capado! Simplesmente capado! Minha vida acabou, vou me jogar na frente do
primeiro caminhão que passar aqui no sitio…”
         –
“Vai não, Euzébio! Caminhão nunca mais. Esqueceu do pedágio? Caminhão e pedágio
se detestam…”
         –
“Oh, não! Malditos castradores de cachorro sem dono.”
Omisso, um cão rural
Gastão Ferreira/2016 

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