O pão da minha mãe
Meus irmãos que me
desculpem, mas Dona Didi nunca foi uma grande cozinheira; a salada de maionese
da tia Hilda, era famosa. A carne assada da tia Nair, uma maravilha. Madrinha
Noêmia caprichava no feijão, e tia Cotinha sabia fazer um arroz carreteiro de
dar água na boca.
desculpem, mas Dona Didi nunca foi uma grande cozinheira; a salada de maionese
da tia Hilda, era famosa. A carne assada da tia Nair, uma maravilha. Madrinha
Noêmia caprichava no feijão, e tia Cotinha sabia fazer um arroz carreteiro de
dar água na boca.
Vovó Julieta fazia pão em um grande forno, vocês nem
tinham nascido, ou eram pequenos demais para lembrarem, mas eu estava por lá,
espiando a velha; nas terras do vô Juca, em Caçapava, o forno de barro foi
construído embaixo de uma imensa e generosa figueira, digo que a figueira era
generosa porque a danada carregava todo o ano, e vovó era especialista em doces
com figos, e como eu gostava e gosto de figos.
tinham nascido, ou eram pequenos demais para lembrarem, mas eu estava por lá,
espiando a velha; nas terras do vô Juca, em Caçapava, o forno de barro foi
construído embaixo de uma imensa e generosa figueira, digo que a figueira era
generosa porque a danada carregava todo o ano, e vovó era especialista em doces
com figos, e como eu gostava e gosto de figos.
Dona Julieta guardava o pão na sala, coisa estranha
guardar o pão na sala! Coisas de vovó. Colocava dentro de uma grande cesta de
vime, cobria com uma toalha, e nada mais. Era fácil de achar o esconderijo, e
eu sempre encontrava.
guardar o pão na sala! Coisas de vovó. Colocava dentro de uma grande cesta de
vime, cobria com uma toalha, e nada mais. Era fácil de achar o esconderijo, e
eu sempre encontrava.
Continuo achando que Dona Didi não entendia lá estas
coisas de culinária, mas de fazer pão superou a vovó. Penso que minha mãe
morreu sem saber que era uma especialista em pães. Ah, os pães de minha mãe!
Macios, perfumados, um sabor que marcou minha infância e juventude. Duravam bem
pouco; os meus tios, primos, primas, vizinhas, os meus irmãos estavam sempre querendo
comer pão. Mamãe guardava o pão em uma grande lata na cozinha, até minha prima
Zenaide sabia qual era a lata do pão.
coisas de culinária, mas de fazer pão superou a vovó. Penso que minha mãe
morreu sem saber que era uma especialista em pães. Ah, os pães de minha mãe!
Macios, perfumados, um sabor que marcou minha infância e juventude. Duravam bem
pouco; os meus tios, primos, primas, vizinhas, os meus irmãos estavam sempre querendo
comer pão. Mamãe guardava o pão em uma grande lata na cozinha, até minha prima
Zenaide sabia qual era a lata do pão.
Eu tinha um restaurante, e dono de restaurante não
tira férias, aliás, não pode tirar férias. Fazia cinco anos que eu não via a minha
mãe, prometi passar aquele natal com meus pais, lá em Esteio/RS, exatamente à
mil quilômetros de Iguape/SP; disse que dia 24 de dezembro estaria por lá, quis
fazer uma surpresa, e viajei alguns dias antes, o surpreendido foi eu. No dia
anterior à viagem telefonei para minha mãe, ela estava tão contente; disse que
meu presente já estava garantido, e que amanhã compraria um presente para cada
filho, e neto. Falou que passara a tarde na casa do meu irmão, uma festa
familiar, junto com as filhas, e os netos; estava muito feliz, naquela noite
ela morreu.
tira férias, aliás, não pode tirar férias. Fazia cinco anos que eu não via a minha
mãe, prometi passar aquele natal com meus pais, lá em Esteio/RS, exatamente à
mil quilômetros de Iguape/SP; disse que dia 24 de dezembro estaria por lá, quis
fazer uma surpresa, e viajei alguns dias antes, o surpreendido foi eu. No dia
anterior à viagem telefonei para minha mãe, ela estava tão contente; disse que
meu presente já estava garantido, e que amanhã compraria um presente para cada
filho, e neto. Falou que passara a tarde na casa do meu irmão, uma festa
familiar, junto com as filhas, e os netos; estava muito feliz, naquela noite
ela morreu.
Quando ela morreu eu estava em um ônibus à caminho de
casa, ainda não tinham inventado o celular. Cochilei à noite, sonhei com vovó
Julieta, acordei chorando. Naquele momento minha mãe estava partindo, e vovó
veio me avisar.
casa, ainda não tinham inventado o celular. Cochilei à noite, sonhei com vovó
Julieta, acordei chorando. Naquele momento minha mãe estava partindo, e vovó
veio me avisar.
Ao voltar do enterro, faminto, pois viajara por vinte
e três horas, quase sem comer nada, meu pai me chamou à cozinha; tinha feito um
café. Eu não chorei no velório, estava chocado! No momento da descida do
caixão, fiquei emocionado, pois como filho mais velho fui encarregado da
despedida; agradeci à Deus a boa mãe com que nos presenteou e pedi à Jesus que
a conservasse junto a si até o dia no qual também nós, seus filhos, fossemos ao
seu encontro… Entreguei os mortos aos mortos, não assisti ao final, virei as
costas e fui a pé para casa.
e três horas, quase sem comer nada, meu pai me chamou à cozinha; tinha feito um
café. Eu não chorei no velório, estava chocado! No momento da descida do
caixão, fiquei emocionado, pois como filho mais velho fui encarregado da
despedida; agradeci à Deus a boa mãe com que nos presenteou e pedi à Jesus que
a conservasse junto a si até o dia no qual também nós, seus filhos, fossemos ao
seu encontro… Entreguei os mortos aos mortos, não assisti ao final, virei as
costas e fui a pé para casa.
Na mesa o café, no prato um pão; o último pão de minha
mãe. Cortei com as mãos, o perfume, o cheiro da minha infância, o pão que eu
não comia há cinco anos, o pão que eu nunca mais comeria. A ficha caiu! Fui
para o quarto e chorei, chorei, e chorei. Não fiquei para o Natal, voltei para
Iguape na manhã seguinte, e voltei órfão.
mãe. Cortei com as mãos, o perfume, o cheiro da minha infância, o pão que eu
não comia há cinco anos, o pão que eu nunca mais comeria. A ficha caiu! Fui
para o quarto e chorei, chorei, e chorei. Não fiquei para o Natal, voltei para
Iguape na manhã seguinte, e voltei órfão.
Descobri um modo simples e seguro de encontrar a minha
mãe no outro lado da vida; vou seguir o cheirinho do pão. Seu cheiro está na
minha memória, vou morrer saudoso deste cheiro, ele partirá comigo para o outro
mundo. Minha mãe espera pelos filhos, foi o que pedi à Jesus! Eu acredito, eu
sei que ela está a nossa espera, e com certeza continua a fazer o que sabia fazer
de melhor. Não deve ter esquecido; fazer pão.
mãe no outro lado da vida; vou seguir o cheirinho do pão. Seu cheiro está na
minha memória, vou morrer saudoso deste cheiro, ele partirá comigo para o outro
mundo. Minha mãe espera pelos filhos, foi o que pedi à Jesus! Eu acredito, eu
sei que ela está a nossa espera, e com certeza continua a fazer o que sabia fazer
de melhor. Não deve ter esquecido; fazer pão.
Ah, o pão da minha mãe! O sabor do pão… Hoje eu sei
porque ele era tão gostoso; era feito com amor. Amor compartilhado, amor nunca
expresso em palavras fugidias, amor que alimenta, ternura, desprendimento, compreensão;
O pão de minha mãe, que falta ele me faz!
porque ele era tão gostoso; era feito com amor. Amor compartilhado, amor nunca
expresso em palavras fugidias, amor que alimenta, ternura, desprendimento, compreensão;
O pão de minha mãe, que falta ele me faz!
Gastão Ferreira/2016
Gastão Ferreira começou a publicar seus textos aos 13 anos. Reconhecido por suas crônicas e poesias premiadas, suas peças de teatro alcançaram grandes públicos. Seus textos e obras estão disponíveis online, reunidos neste blog para que todos possam desfrutar de sua vasta e premiada produção.