O fantasma tarado

         Tem
dias que gosto de visitar a cidade grande, conversar com bichos diferentes,
saber das novidades, ver coisas que não existem no sítio, coisas que cachorro
não entende; reparei num moço bem apessoado, aparentemente saudável, pedindo
“por amor de Deus” uma moeda, disse que estava com fome. A senhora à quem ele
pediu socorro negou o dinheiro, mas ofereceu um lanche. Ele aceitou, o lanche
custou dez Reais. Não estou inventando, eu segui o rapaz e vi quando ele vendeu
a merenda por dois Reais, fiquei pensando; será que Deus viu a sacanagem?
Coitado do moço! Está plantando espinhos, pois enganar aos outros é enganar a
si mesmo.
         Ocorreu
um escândalo aqui no sitio. Faz um bom tempo que aparece uma visagem depois que
anoitece; um fantasma tarado anda atacando as mocinhas, as moças, as senhoras e
as velhas. Não perdoa ninguém! Quase matou de susto o garoto Dudu Xana. Dudu
gosta de se vestir de mulher, mas é um menino muito inocente, não faz mal a
ninguém.
         Foi
a primeira vez que o fantasma tarado atacou um homem, acho que devido a
escuridão, não reparou que era o Dudu, e não uma mulher de verdade. A visagem
nunca estuprou ninguém, o negócio era só passar a mão, fungar no cangote,
alguns beijinhos, nunca disse uma palavra, mas com o Dudu foi diferente. Passou
a mão aqui, ali, acolá, e sentiu algo estranho, e deu um grito; – Meu Bonje!
Dudu Xana.
         Dudu
conseguiu escapar ileso, e só pelo bafo de pinga desconfiou; sabia quem era o
fantasma tarado. Garoto esperto, guardou por muito tempo segredo sobre o
ataque. A próxima vítima da aparição foi Dona Maria Bugre, melhor idade, serva
do Senhor, mulher de respeito. Dona Bugre ficou traumatizada, desde a morte do
marido, há vinte anos, não sentia um gostinho de sacanagem, e o fantasma se
mostrou um mestre no assunto. Deixa estar que ele aparece novamente; contou ao
compadre Dito Brocha sobre a safadeza.
         Seu
Dito Brocha tinha um probleminha, também padeceu nas mãos de uma visagem. Tanto
sofreu que nem Viagra conseguiu resolver o tal probleminha. Amava secretamente
a comadre Maria Bugre, mas faltava coragem para se declarar, e com o tal
probleminha, dificilmente a mulher lhe daria uma chance. Sentiu firmeza quando
a comadre confessou que adorou as libidinagens do fantasma.
         A
história do fantasma tarado estava gerando grande mal estar no sitio; mal
anoitecia e a mulherada resolvia passear, ir até a margem do rio, colher
frutas, visitar o roçado. Dona Maria Bugre toda a noite saia de casa, e Dudu
Xana também. Dudu notou que Dona Maria costumava entrar numa capoeira, e quando
saia do mato, parecia muito feliz. Uma noite, ele colocou o vestido de luto de
sua avó, vestido preto que se confundia com a escuridão, e seguiu Dona Bugre.
         Deu
um tempo, e entrou no bosque; meu Bonje! O fantasma tarado estava abusando de
Dona Maria, ela gemia, suspirava, se debatia, e não conseguia escapar do
monstro. Dudu achou um pedaço de madeira e deu uma cacetada certeira na cabeça
do fantasma, o bicho desmaiou, e Dona Bugre escafedeu-se. Quem era a visagem?
Dito Brocha.
         Dudu
ficou horrorizado, deu o maior chilique, contou aos berros a identidade da
aparição, mas sem falar do que viu acontecer com Dona Maria Bugre. Como estava
vestido de mulher, ninguém acreditou na história. Passou por mentiroso, e
quando questionado sobre o porquê de estar com roupas femininas, ficou calado.
         O
povo estranhou o casamento de Dona Maria Bugre com o Dito Brocha. Coitada! O
Dito com aquele probleminha jamais daria conta do recado. O povo nunca ficou
sabendo que Dona Maria havia curado o Dito… Nada como ter um fantasma tarado
para chamar de seu.
         Cachorro
entra em todos os lugares, ninguém liga. Eu assisti ao vivo e a cores a alegria
do casal. Só não entendi o porquê do lençol; acho que é fetiche.
Omisso; um cão curioso do sítio
Gastão Ferreira/2016
            

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