O conto do bolo
Cidade
antiga a nossa Princesa do Litoral, por Iguape passaram conquistadores
espanhóis, aventureiros, piratas, bandoleiros, ladrões de ouro e corações. O
Brasil criança engatinhou por aqui; a Linha de Tordesilhas cortou nossas
terras. Índios foram apreados e escravizados bem antes dos africanos chegarem.
Muito sangue manchou a paisagem. Somos parte da história deste pais.
antiga a nossa Princesa do Litoral, por Iguape passaram conquistadores
espanhóis, aventureiros, piratas, bandoleiros, ladrões de ouro e corações. O
Brasil criança engatinhou por aqui; a Linha de Tordesilhas cortou nossas
terras. Índios foram apreados e escravizados bem antes dos africanos chegarem.
Muito sangue manchou a paisagem. Somos parte da história deste pais.
Muitas
lendas, causos além da imaginação, engodos, armadilhas, romance e traição. A
cidade é palco antigo aonde a vida dança ao sabor da música. Donzelas de
corações partidos, acenaram com alvos lenços em despedida, aos marujos que
roubaram seus corações. Os velhos casarões contam histórias, suas memórias
escondem segredos envoltos em lágrimas, suspiros, risos, comemorações.
lendas, causos além da imaginação, engodos, armadilhas, romance e traição. A
cidade é palco antigo aonde a vida dança ao sabor da música. Donzelas de
corações partidos, acenaram com alvos lenços em despedida, aos marujos que
roubaram seus corações. Os velhos casarões contam histórias, suas memórias
escondem segredos envoltos em lágrimas, suspiros, risos, comemorações.
Na Praça
da Matriz, aquela que no passado foi um cemitério, crianças correm serelepes,
nascem romances, passa o santo em seu andor, o boi, a juritica; as visagens e a
alma dos mortos espiam o carnaval dos vivos. Do solar dos Toledos, o leão
centenário observa mudo, o tempo passar; a bondade e a maldade, de mãos juntas,
muitas coisas têm à nos contar.
da Matriz, aquela que no passado foi um cemitério, crianças correm serelepes,
nascem romances, passa o santo em seu andor, o boi, a juritica; as visagens e a
alma dos mortos espiam o carnaval dos vivos. Do solar dos Toledos, o leão
centenário observa mudo, o tempo passar; a bondade e a maldade, de mãos juntas,
muitas coisas têm à nos contar.
Madame
encomendou um bolo, pagou à vista e com muitas exigências; produto de primeira,
coisa de gente fina, de quem conhece o melhor, confeitado e produzido com
ingredientes importados. Era a cereja da festa de quinze anos de sua filha e
herdeira.
encomendou um bolo, pagou à vista e com muitas exigências; produto de primeira,
coisa de gente fina, de quem conhece o melhor, confeitado e produzido com
ingredientes importados. Era a cereja da festa de quinze anos de sua filha e
herdeira.
Cidade
pequena, onde o principal jornal é a boca do povo, a notícia da encomenda
vazou, e o povo espalhou. Dona Mitiko, a doceira, queria caprichar no pedido,
pois Madame era nervosinha, cheia de chiliques. A doceira não podia estressar a
freguesa ricaça.
pequena, onde o principal jornal é a boca do povo, a notícia da encomenda
vazou, e o povo espalhou. Dona Mitiko, a doceira, queria caprichar no pedido,
pois Madame era nervosinha, cheia de chiliques. A doceira não podia estressar a
freguesa ricaça.
Pobres e
nobres comentavam sobre o bolo; crianças se babavam, sonhando com a gostosura.
As mães dos meninos pobres, tentavam explicar o porquê do não poder comprar
algo tão especial; o bolo da menina herdeira seria feito da melhor farinha, com
as frutas mais caras, com a cobertura mais vistosa.
nobres comentavam sobre o bolo; crianças se babavam, sonhando com a gostosura.
As mães dos meninos pobres, tentavam explicar o porquê do não poder comprar
algo tão especial; o bolo da menina herdeira seria feito da melhor farinha, com
as frutas mais caras, com a cobertura mais vistosa.
Dona
Mitiko gastou o que tinha e o que não tinha, o bolo seria o seu passaporte para
o sucesso, e a porta de entrada para a conquista dos fregueses na burguesia;
sua consagração como a melhor doceira da cidade.
Mitiko gastou o que tinha e o que não tinha, o bolo seria o seu passaporte para
o sucesso, e a porta de entrada para a conquista dos fregueses na burguesia;
sua consagração como a melhor doceira da cidade.
Eram
oito horas da noite; a mulher humilde bateu na porta: – “Madame mandou buscar o
bolo”, disse.
oito horas da noite; a mulher humilde bateu na porta: – “Madame mandou buscar o
bolo”, disse.
Pela
manhã a carruagem estacionou frente à casa, Madame e uma criada desceram: – “Madame
quer o bolo”, informou a serviçal.
manhã a carruagem estacionou frente à casa, Madame e uma criada desceram: – “Madame
quer o bolo”, informou a serviçal.
– “O
bolo foi entregue ontem à noite, a pedido de Madame”, disse Dona Mitiko
bolo foi entregue ontem à noite, a pedido de Madame”, disse Dona Mitiko
Começou
o barraco! O maior bate-boca, baixaria pura por parte de Madame, pois gente
fina sabe ofender melhor do que gente grossa. Resultado? Madame estapeou Dona
Mitiko, quebrou a sombrinha importada na cabeça da doceira, exigiu o dinheiro
de volta, prometeu abrir um processo; juntou gente, o povo assistiu.
o barraco! O maior bate-boca, baixaria pura por parte de Madame, pois gente
fina sabe ofender melhor do que gente grossa. Resultado? Madame estapeou Dona
Mitiko, quebrou a sombrinha importada na cabeça da doceira, exigiu o dinheiro
de volta, prometeu abrir um processo; juntou gente, o povo assistiu.
Ah, o
povo! O povo aumenta, mas não inventa. Disseram que foi um golpe de Dona
Mitiko, o primeiro “Conto do bolo” de que se tem notícia. Qual o problema? Não
existe o “Conto do vigário”?
povo! O povo aumenta, mas não inventa. Disseram que foi um golpe de Dona
Mitiko, o primeiro “Conto do bolo” de que se tem notícia. Qual o problema? Não
existe o “Conto do vigário”?
Desta
vez o povo se enganou; Dona Mitiko era inocente, entregou o caríssimo bolo à
Maria Rita, uma escrava liberta, e mãe de Pedro Benedito, um guri que jamais
provara de uma guloseima tão especial. Sabe como é? Mãe é mãe!
vez o povo se enganou; Dona Mitiko era inocente, entregou o caríssimo bolo à
Maria Rita, uma escrava liberta, e mãe de Pedro Benedito, um guri que jamais
provara de uma guloseima tão especial. Sabe como é? Mãe é mãe!
Ninguém
ficou sabendo quem passou o “Conto do bolo”, mas Pedro Benedito desconfiou;
como a sua mãe, tão pobre, comprou um bolo tão caro? Não importa! O bolo
realmente era uma delícia. O “Conto do bolo” virou lenda urbana, Dona Mitiko
ficou famosa, a herdeira de Madame ganhou um colar de pérolas, e meia garrafa
de ouro em pó. A vida sorriu, um bem-te-vi cantou; maldade e bondade, amigas
inseparáveis, de mãos dadas, foram passear na Praça da Matriz.
ficou sabendo quem passou o “Conto do bolo”, mas Pedro Benedito desconfiou;
como a sua mãe, tão pobre, comprou um bolo tão caro? Não importa! O bolo
realmente era uma delícia. O “Conto do bolo” virou lenda urbana, Dona Mitiko
ficou famosa, a herdeira de Madame ganhou um colar de pérolas, e meia garrafa
de ouro em pó. A vida sorriu, um bem-te-vi cantou; maldade e bondade, amigas
inseparáveis, de mãos dadas, foram passear na Praça da Matriz.
Gastão Ferreira/2016
Gastão Ferreira começou a publicar seus textos aos 13 anos. Reconhecido por suas crônicas e poesias premiadas, suas peças de teatro alcançaram grandes públicos. Seus textos e obras estão disponíveis online, reunidos neste blog para que todos possam desfrutar de sua vasta e premiada produção.