O cheiro do futuro
Quando Eleonora enlouqueceu a vila ficou mais risonha,
foi a forma que a plebe vil arranjou para se vingar do alferes Dom Eduardo, o
cafajeste. Estávamos próximo ao Ano do Senhor de 1.600 e na incipiente Vila de
Iguape só havia novidades; um jovem minerador trouxe de Santos um animal
chamado cavalo, bicho estranho e bonito. Não sei como explicar; é diferente de
uma anta, mais esbelto, e, inacreditável! É possível montá-lo, é possível
viajar léguas e léguas sentado confortavelmente sobre o seu lombo.
foi a forma que a plebe vil arranjou para se vingar do alferes Dom Eduardo, o
cafajeste. Estávamos próximo ao Ano do Senhor de 1.600 e na incipiente Vila de
Iguape só havia novidades; um jovem minerador trouxe de Santos um animal
chamado cavalo, bicho estranho e bonito. Não sei como explicar; é diferente de
uma anta, mais esbelto, e, inacreditável! É possível montá-lo, é possível
viajar léguas e léguas sentado confortavelmente sobre o seu lombo.
Outra novidade é o fogo chinês; é feito com pólvora, e
explode fazendo um grande barulho. Um estrondo que vai longe. Não, não estou
inventando, é a mais pura verdade; ele está sendo usado para anunciar a chegada
dos navios piratas, e substitui as fogueiras que o Espia Real acende sobre o
morro cada vez que avista algo suspeito no lagamar.
explode fazendo um grande barulho. Um estrondo que vai longe. Não, não estou
inventando, é a mais pura verdade; ele está sendo usado para anunciar a chegada
dos navios piratas, e substitui as fogueiras que o Espia Real acende sobre o
morro cada vez que avista algo suspeito no lagamar.
Se
vocês pensam que estou a inventar histórias do arco da velha, gostaria de
convidá-los à passarem algumas horas com a donzela Eleonora; sei que é
impossível, o alferes Eduardo a mantém cativa. Três fortes índios tupis,
armados até os dentes com arco e flecha, bordunas e um moderno bacamarte, não
deixam ninguém se aproximar da menina moça.
vocês pensam que estou a inventar histórias do arco da velha, gostaria de
convidá-los à passarem algumas horas com a donzela Eleonora; sei que é
impossível, o alferes Eduardo a mantém cativa. Três fortes índios tupis,
armados até os dentes com arco e flecha, bordunas e um moderno bacamarte, não
deixam ninguém se aproximar da menina moça.
Foi
na última festa de São João que começou a desdita da rapariga; ao pular a
fogueira levou um tombo e bateu a cabeça, coisa feia, desmaiou e foi levada às
pressas para casa. Ao despertar parecia normal; tomou o desjejum e chegou até a
elogiar a gostosa farofa de raposa. Trocou de roupa e foi espiar a praça; ao
abrir a janela deu grito pavoroso e os serviçais correram pressurosos para
saber o porquê dos berros. O alferes foi chamado e interrogou a filha: – “O que
aconteceu, Norinha?”
na última festa de São João que começou a desdita da rapariga; ao pular a
fogueira levou um tombo e bateu a cabeça, coisa feia, desmaiou e foi levada às
pressas para casa. Ao despertar parecia normal; tomou o desjejum e chegou até a
elogiar a gostosa farofa de raposa. Trocou de roupa e foi espiar a praça; ao
abrir a janela deu grito pavoroso e os serviçais correram pressurosos para
saber o porquê dos berros. O alferes foi chamado e interrogou a filha: – “O que
aconteceu, Norinha?”
– Senhor meu pai, a praça não é mais a
mesma…
mesma…
–
Como não, filha! A praça é mesma. O cemitério, a igreja de Nossa Senhora das
Neves, alguns índios com suas tralhas de pesca… Tudo a mesmice de sempre.
Como não, filha! A praça é mesma. O cemitério, a igreja de Nossa Senhora das
Neves, alguns índios com suas tralhas de pesca… Tudo a mesmice de sempre.
–
Não meu pai! Não e não! Vejo muitas casas, tem até casa por cima de casa… A
igreja agora é imensa, não tem mais as campas santas, pessoas de cores
diferentes…
Não meu pai! Não e não! Vejo muitas casas, tem até casa por cima de casa… A
igreja agora é imensa, não tem mais as campas santas, pessoas de cores
diferentes…
–
“Acho que a donzela Eleonora ficou maluca… Uma casa em cima da outra…
Ora… Ora.”, balbuciou Juremê, a índia que cuidava dos afazeres domésticos.
“Acho que a donzela Eleonora ficou maluca… Uma casa em cima da outra…
Ora… Ora.”, balbuciou Juremê, a índia que cuidava dos afazeres domésticos.
–
Isto não é possível filha! Onde já se viu gente de cor diferente…
Isto não é possível filha! Onde já se viu gente de cor diferente…
–
Tem gente preta, gente branca, mulata, amarela… E as roupas! Que pouca vergonha…
Que pouca vergonha… Socorro minha Nossa Senhora das Neves…
Tem gente preta, gente branca, mulata, amarela… E as roupas! Que pouca vergonha…
Que pouca vergonha… Socorro minha Nossa Senhora das Neves…
–
Juremê! Corra a chamar um médico… Esqueci de que não temos médicos na vila! Chame
o senhor vigário imediatamente…
Juremê! Corra a chamar um médico… Esqueci de que não temos médicos na vila! Chame
o senhor vigário imediatamente…
O
senhor vigário veio rápido. Homem de Deus, formado em Lisboa, seu sonho era
torturar alguém na Santa Inquisição, mas acabou sendo enviado ao Novo Mundo
para salvar a alma dos selvagens despudorados e que viviam peladões na margem
dos muitos rios de Pindorama. De cara pensou em adotar os métodos da Santa
Inquisição e mandar logo para a fogueira a menina Eleonora. Tinha que ser
sorrateiro, a moça era filha única do alferes Eduardo, o cafajeste. E, todo o
cafajeste é um perigo, melhor se conter: – “O que se passa, criança?”
senhor vigário veio rápido. Homem de Deus, formado em Lisboa, seu sonho era
torturar alguém na Santa Inquisição, mas acabou sendo enviado ao Novo Mundo
para salvar a alma dos selvagens despudorados e que viviam peladões na margem
dos muitos rios de Pindorama. De cara pensou em adotar os métodos da Santa
Inquisição e mandar logo para a fogueira a menina Eleonora. Tinha que ser
sorrateiro, a moça era filha única do alferes Eduardo, o cafajeste. E, todo o
cafajeste é um perigo, melhor se conter: – “O que se passa, criança?”
–
Não sei, senhor vigário! Ao abrir a janela tudo ficou diferente…
Não sei, senhor vigário! Ao abrir a janela tudo ficou diferente…
–
Como assim, diferente? …
Como assim, diferente? …
–
Tem uns bichos com rodas passando pela praça…
Tem uns bichos com rodas passando pela praça…
–
Bicho com rodas? O caso é pior do que eu pensava…
Bicho com rodas? O caso é pior do que eu pensava…
–
Bicho de quatro rodas, bicho de duas rodas, bicho de rodinhas… Aí, meu Deus!
Bicho de quatro rodas, bicho de duas rodas, bicho de rodinhas… Aí, meu Deus!
–
Não fale o nome de Deus em vão! Você está possuída por um ser demoníaco… Vou
pedir a Das Neves por vosmecê…
Não fale o nome de Deus em vão! Você está possuída por um ser demoníaco… Vou
pedir a Das Neves por vosmecê…
–
Não padre! Peça ao Bom Jesus… É ele quem manda neste mundo que só eu vejo.
Não padre! Peça ao Bom Jesus… É ele quem manda neste mundo que só eu vejo.
–
Alferes! Não sei o que dizer… A donzela não fala coisa com coisa… Penso que
tem uma mente muito fértil ou talvez tenha enlouquecido…
Alferes! Não sei o que dizer… A donzela não fala coisa com coisa… Penso que
tem uma mente muito fértil ou talvez tenha enlouquecido…
–
Como ousa pensar algo assim de minha única filha! Quer que eu o mande para
Cananéia imediatamente?
Como ousa pensar algo assim de minha única filha! Quer que eu o mande para
Cananéia imediatamente?
–
Perdão, senhor alferes… Vou consultar meus alfarrábios e tentar descobrir o
que acontece com a menina…
Perdão, senhor alferes… Vou consultar meus alfarrábios e tentar descobrir o
que acontece com a menina…
O
padre contou o acontecido ao sacristão, o sacristão contou para o barbeiro e o
fígaro espalhou para todos os seus clientes. Resultado? O vigário foi enviado
em uma expedição ao interior e desapareceu misteriosamente. Mesmo assim alguns
parentes foram ver Eleonora antes da proibição definitiva de receber visitas e
contaram horrores.
padre contou o acontecido ao sacristão, o sacristão contou para o barbeiro e o
fígaro espalhou para todos os seus clientes. Resultado? O vigário foi enviado
em uma expedição ao interior e desapareceu misteriosamente. Mesmo assim alguns
parentes foram ver Eleonora antes da proibição definitiva de receber visitas e
contaram horrores.
A
menina via pássaros sem asas passando pelo céu com o nome de aviões, alguns
pareciam imensas cigarras, e se chamavam helicópteros, canoas singrando as
águas sem remadores, uma voz vinda do nada dizendo “Alô… Atenção…”, padres
sem batinas. Pessoas falando com um pequeno objeto que seguravam na mão; no
Morro do Vigia um homem gigante com os braços abertos espiava a cidade,
lampiões que se acendiam sozinhos ao anoitecer, gente gritando, gente pedindo
dinheiro para comprar pão… Pipocas coloridas dentro de quadrados feitos de
vidro… Coisa de louco! Coisa de doido!
menina via pássaros sem asas passando pelo céu com o nome de aviões, alguns
pareciam imensas cigarras, e se chamavam helicópteros, canoas singrando as
águas sem remadores, uma voz vinda do nada dizendo “Alô… Atenção…”, padres
sem batinas. Pessoas falando com um pequeno objeto que seguravam na mão; no
Morro do Vigia um homem gigante com os braços abertos espiava a cidade,
lampiões que se acendiam sozinhos ao anoitecer, gente gritando, gente pedindo
dinheiro para comprar pão… Pipocas coloridas dentro de quadrados feitos de
vidro… Coisa de louco! Coisa de doido!
E
vocês aqui da Jureia achando que sou maluco só porque vi um cavalo. Eu hein!
Maluca é a donzela Eleonora que vê coisas que nunca irão existir… Tadinha da
moça!
vocês aqui da Jureia achando que sou maluco só porque vi um cavalo. Eu hein!
Maluca é a donzela Eleonora que vê coisas que nunca irão existir… Tadinha da
moça!
Gastão
Ferreira/2016
Ferreira/2016
Gastão Ferreira começou a publicar seus textos aos 13 anos. Reconhecido por suas crônicas e poesias premiadas, suas peças de teatro alcançaram grandes públicos. Seus textos e obras estão disponíveis online, reunidos neste blog para que todos possam desfrutar de sua vasta e premiada produção.