Meu primeiro gato

         Madame
Marcia Cristina de Oliveira Barros, proprietária do recando “Meu Éden”,
mudou-se de mala e cuia para a zona rural, parece que a crise atingiu suas
finanças, e ela resolveu investir na plantação de feijão, atualmente comida
ostentação, e só para gente rica. Tinha tanta tranqueira velha na mansão da
cidade, que foi necessário três caminhões para transportar os cacarecos; as
pessoas ficaram espiando de olho comprido à passagem dos veículos de
transporte, e o que mais chamou à atenção foi um belíssimo gato, todo pimpão,
no colo de madame.
         A gata
Ignoro, minha amiga de infância, cismou de conhecer o novo vizinho, o bichano
de Dona Cricri, apelido carinhoso de madame Oliveira Barros. Fomos até o sitio
“Meu Éden”, nos deparamos com uma placa “Cuidado! Cão feroz”, nem nos
incomodamos, cachorro é tudo amigo, basta saber cheirar nos lugares certos, e
nada acontece.
         A
gatinha Ignoro, é muito assanhada, eternamente no cio; uma coisa aíva, se acha
o felino mais lindo do mundo, cheia de truques para conquistar quem lhe
interessa. Ficamos rondando a casa; um belo jardim, tem até piscina. Dona
Cricri estava tomando sol, gente rica é bem estranha, tinha dois rodelas de
pepino sobre os olhos, o gostosão dormia aos seus pés.
         O tal do
cão feroz não passava de um velho Labrador aposentado, muito educado, perguntou
o que estávamos fazendo no local. Contei da paixonite aguda de Ignoro, e o novo
amigo deu uma gostosa risada, ele era bem manso, e de feroz só tinha o nome.
Gostei do nome; cão Feroz.
         Feroz
colaborou na apresentação, o apelido do gato é Kyllan Boy. Bichano de cidade
grande, caseiro, mimado, só come ração, e nunca caçou um passarinho na vida. Um
tanto desligado, mas muito simpático. A gatinha Ignoro pagou o maior mico;
rolou na grama, lançou seu charme irresistível, fez caras e bocas, ronronou, e
nada. Ignoro foi ignorada.
         Kyllan
Boy compartilhou a ração com Ignoro, e Feroz perguntou se eu tinha fome,
devorei alguns petiscos. Feroz me convidou à voltar quantas vezes eu quisesse,
estava idoso e gostava de conversar, tinha muitas histórias para contar, fora
um condutor de cegos na juventude, acompanhou um dos maridos de madame ao
exterior, conheceu um país de nome Paraguai. O papo estava bom, mas ouvimos um
miado horrível de Ignoro, e ela saiu em disparada do “Meu Éden”.
         Fui
atrás da amiga, parecia alucinada, soltava tristes mios, coisa de cortar o
coração. Perguntei apavorado se Kyllan Boy havia lhe faltado com o respeito,
tentado estupra-la, se ele a maltratou. Ela respondeu tristinha; – “Passei
horas lambendo o pelo, horas me preparando para um romance, me neguei a transar
com um gato do mato, o Romeu, aquela jaguatirica sedutora, e para que? Para
quê?”, e começou a chorar.
         – “Não
estou entendendo! Afinal, o que aconteceu?”, perguntei-lhe.
         – “Ai é
que está! Não aconteceu nada. Kyllan Boy é castrado!”
         Caramba!
O primeiro gato da cidade a aparecer no sitio, cheio de charme, bonitão, carne
de primeira, sonho de consumo de todas as gatinhas manhosas, e capado! Foi
muito azar para a bela Ignoro. Quando meu primo Barrabás perguntou aonde fomos,
respondi; – “Fomos visitar o cão Feroz, e o gato Capado”, não é que o apelido
pegou, pobre Kyllan Boy!
Omisso, um cão rural
Gastão Ferreira/2016

 

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