Meu primeiro amor

         Não
sei como explicar, ainda sou um cão adolescente, curioso e brincalhão. Tem vez
que gosto de erguer a cabeça e espiar as nuvens do céu; roer um osso, correr
atrás de bicho do mato, tomar banho no riacho, bater papo com os amigos. Agora
vivo confuso, uma vontade imensa de uivar para a lua, fico até envergonhado de
confessar, mas hoje em dia quando olho às nuvens, todas elas tem a forma de uma
carinha sapeca, tenho anseios de dividir o osso que estou corroendo com alguém
que conheci, e me falta coragem.
         Conversei
com Feroz, o velho cão de madame Cricri, ele é bem experiente, e me fez várias
perguntas; – “Tens dormido bem, meu rapaz?”
        
“Não muito! Acordo suando frio, tenho sonhos eróticos, meu humor muda de uma
hora para outra”, confessei.
        
“E tens se alimentado direito?”
        
“Perco fácil o apetite, ando nervosinho, me irrito à toa.”
        
“E a saúde, normal?”, perguntou Feroz.
        
“Tem hora que o coração dispara, é só pensar em alguém que ele parece querer
sair pela boca.”
        
“Tens notado algo de errado acontecendo contigo?”
        
“Sim! Todos os dias e várias vezes no mesmo dia passo frente ao sitio do seu
Nico, e fico de orelhas em pé tentando ouvir um certo rosnar.”
        
“E de quem é o rosnado, posso saber?”
        
“De Laika das Dores, a cachorrinha mais fofa do mundo.”
        
“Resolvido o problema! Você está apaixonado, caro amigo Omisso.”, disse o velho
e sábio Feroz.
        
“Não pode ser, Feroz! Mal conheço a donzela, nunca conversamos, jamais dei uma
cheirada naquela coisinha fofa.”
        
“Paixonite na certa! Teus olhos brilharam quando falou na mocinha. Quando se
conheceram?”
        
“Na festa de São João, o seu Nico participou, e ela foi junto com a família.
Realmente, ela ficou me encarando, dando uns sorrisinhos estranhos, lambendo a
boca, se coçando a todo o momento, até pensei que estivesse com sarna.”
        
“Ela estava te paquerando, seu bobo!”
        
“Será? Pelo que lembro também fiz muita bobagem; fiz xixi em todas as árvores,
corri atrás das crianças, roubei um espetinho de carne, tomei quentão e apaguei
de vez.”
        
“É o amor! Ele deixa a gente meio abobado, e pior, não tem cura.”
        
“Não tem cura? Me ferrei!”
        
“Calma, calma! Estou brincando. Tem cura sim! Basta falar com a garota que as
coisas se acertam.”
        
“Sou tímido, envergonhado, não sei o que dizer.”
        
“Desculpas, só desculpas.”
        
“Tenho medo de ouvir um não, esta é a verdade.”
        
“Estamos melhorando! Que tal levar um osso de presente para a namorada?”
        
“Ela não é minha namorada!”
        
“Eta nervosinho! Mas vai ser…. Passe na frente do sítio do seu Nico, chame a
guria, e pergunte se ela por acaso perdeu um osso.”
        
“Mas que coisa de cachorro abobado!”
        
“Todos os apaixonados são meio abobados, vai por mim, ela vai cair no teu papo,
aliás ela está doidinha para cair na tua conversa, vai por mim.”  
         Não
dormi a noite, tremo só de pensar se o truque do osso não der certo. Vou
aproveitar o sol matinal, e levar o presente. Torçam por mim.
Omisso, um cão apaixonado.
Gastão
Ferreira/2016                                           
  

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