Hora da onça beber água

(Texto só com expressões populares)

         Minha
memória é de elefante, sem jamais comprar gato por lebre, sei muito bem que
macaco velho não põe a mão em cumbuca. Tem muito lobo, em pele de cordeiro, se
dizendo com a macaca, mas nem sempre tem boi na linha para se fazer um bicho de
sete cabeças quando a vaca vai pro brejo.
         Naquela
manhã acordei com a macaca, fiquei uma arara, bebi feito um gambá. Com minhocas
na cabeça, e uma vontade de pegar touro à unha, fiz boca de siri. Chegou o
momento em que a porca torce o rabo, sem espírito de porco, era a hora de tirar
o cavalo da chuva.
         Encontrei
Dito Preá, um jacu do mato, nariz de tucano, perna de saracura, e com bafo de
onça. O ditado popular diz que em rio que tem piranha, jacaré nada de costa.
Com passos de tartaruga, Dito se aproximou cheio de nove horas.
         O
homem fez uma tempestade em copo de água, disse cobras e lagartos, havia
provado da água que passarinho não bebe; cabelo de capivara, olhos de lince,
voz de taquara rachada, chorou as pitangas; quis me dar um abraço de tamanduá.
         Não
fui com sede ao pote, qualquer deslize e poderia chover canivetes. Manhoso,
feito cordeiro desmamado, conversei abobrinhas, misturei alhos com bugalhos, e
dei o bote certeiro; convidei o amigo da onça para ver navios, Dito Preá fez
boca de caçapa, apesar dos raios e trovões, negou-se à dar o troco.
         Amanhã
à Deus pertence! Um senhor santo do pau oco, este Dito Preá. Ainda não esqueci
do conto do vigário aprontado comigo. Em casa de ferreiro, espeto de pau; um
dia a casa cai. Como disse, estou armando o bote, minha vingança será maligna;
chegou a hora da onça beber água.
Gastão Ferreira/2016

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