Histórias
da minha mãe
Minha
mãe foi uma empreendedora nata e não sabia; qualquer novidade e lá estava ela
tentando fazer o que não entendia. Um dia foi cortar o cabelo e descobriu uma
mina de ouro; fazer chapinha para encaracolar cabelos rebeldes. Não deu outra,
comprou os produtos e arrumou a primeira e única cliente. A tarde a mulher
voltou e fez o maior escândalo no portão de casa e minha mãe mandou eu atender
a freguesa e dizer que ela não estava em casa:
mãe foi uma empreendedora nata e não sabia; qualquer novidade e lá estava ela
tentando fazer o que não entendia. Um dia foi cortar o cabelo e descobriu uma
mina de ouro; fazer chapinha para encaracolar cabelos rebeldes. Não deu outra,
comprou os produtos e arrumou a primeira e única cliente. A tarde a mulher
voltou e fez o maior escândalo no portão de casa e minha mãe mandou eu atender
a freguesa e dizer que ela não estava em casa:
–
“Olha guri o que a tua mãe fez com o meu lindo cabelo!”, gritava desesperada
arrancando mechas e mechas do cabelo, “eu vou pegar ela na rua e dar uma boa
surra.”
“Olha guri o que a tua mãe fez com o meu lindo cabelo!”, gritava desesperada
arrancando mechas e mechas do cabelo, “eu vou pegar ela na rua e dar uma boa
surra.”
Dona
Anadir dosou errado os produtos químicos e deu no que deu, e, partiu para algo
menos perigoso, vender caldo de mocotó. Eu devia ter uns onze anos e sai
oferecendo a novidade para a vizinhança; vendi dez porções. Todos elogiaram e
nem precisei sair para novas vendas, pois na outra semana umas vinte pessoas
foram buscar o delicioso caldo. Estava aquela gentarada na frente de casa e minha
mãe só havia feito dez porções e tacou água para contentar a todos. Foi o
último caldo de mocotó que fez na vida e ainda ouviu muito desaforo; o caldo
estava pura água.
Anadir dosou errado os produtos químicos e deu no que deu, e, partiu para algo
menos perigoso, vender caldo de mocotó. Eu devia ter uns onze anos e sai
oferecendo a novidade para a vizinhança; vendi dez porções. Todos elogiaram e
nem precisei sair para novas vendas, pois na outra semana umas vinte pessoas
foram buscar o delicioso caldo. Estava aquela gentarada na frente de casa e minha
mãe só havia feito dez porções e tacou água para contentar a todos. Foi o
último caldo de mocotó que fez na vida e ainda ouviu muito desaforo; o caldo
estava pura água.
Tem
a história da cerveja preta; não sei onde ela arrumou a receita, mas quase todas
as cervejas explodiam. O pior é que ela passou a receita para as irmãs e
cunhadas, e, as cervejas delas também explodiam. Minha mãe estava com 35 anos.
a história da cerveja preta; não sei onde ela arrumou a receita, mas quase todas
as cervejas explodiam. O pior é que ela passou a receita para as irmãs e
cunhadas, e, as cervejas delas também explodiam. Minha mãe estava com 35 anos.
Nem
tudo que Dona Anadir fazia dava errado, seus pés-de-moleque eram famosos e
vendiam adoidados, assim como seus bolinhos de polvilho. Também produzia “pão
feito em casa”, só de lembrar sinto o gostinho.
tudo que Dona Anadir fazia dava errado, seus pés-de-moleque eram famosos e
vendiam adoidados, assim como seus bolinhos de polvilho. Também produzia “pão
feito em casa”, só de lembrar sinto o gostinho.
Vim
morar em São Paulo quando minha mãe estava com 48 anos e perdi algumas das suas
criatividades, creio que continuou uma grande empreendedora, pois aos 60 anos
veio ficar alguns dias comigo em Iguape e em plena Festa de Agosto cismou em
fazer pé-de-moleque e pão caseiro para vender em meu restaurante. Um sufoco!
Milhares de pessoas na cidade, empregados extras, duas cozinheiras se revezando
nos fogões e minha mãe usando o forno para assar pão, torrar amendoim. Tadinha!
Não vendemos nenhum pé-de-moleque …
morar em São Paulo quando minha mãe estava com 48 anos e perdi algumas das suas
criatividades, creio que continuou uma grande empreendedora, pois aos 60 anos
veio ficar alguns dias comigo em Iguape e em plena Festa de Agosto cismou em
fazer pé-de-moleque e pão caseiro para vender em meu restaurante. Um sufoco!
Milhares de pessoas na cidade, empregados extras, duas cozinheiras se revezando
nos fogões e minha mãe usando o forno para assar pão, torrar amendoim. Tadinha!
Não vendemos nenhum pé-de-moleque …
Esta
mulher humilde, magrinha, de voz mansa e mão pesada, nunca permitiu que os
filhos falassem um palavrão, suas surras eram temidas pelos filhos mais velhos.
Eu enfrentava minha mãe e não gostava da mania que tinha de dividir o pouco que
tínhamos; qualquer visita tinha que comer alguma coisa, quando fazia um doce
dividia com a vizinhança, alguém doente e lá estava ela, nossa casa parecia uma
pensão.
mulher humilde, magrinha, de voz mansa e mão pesada, nunca permitiu que os
filhos falassem um palavrão, suas surras eram temidas pelos filhos mais velhos.
Eu enfrentava minha mãe e não gostava da mania que tinha de dividir o pouco que
tínhamos; qualquer visita tinha que comer alguma coisa, quando fazia um doce
dividia com a vizinhança, alguém doente e lá estava ela, nossa casa parecia uma
pensão.
Hoje
que o tempo branqueou os meus cabelos e a vida ensinou-me algumas coisas, como
gostaria de novamente conversar com minha mãe. Eu lhe diria que ela estava
certa e eu errado; que compartilhar faz bem à alma. Que ajudar nunca tirou
pedaço de ninguém. Que o respeito é fundamental. Na verdade ela nunca me falou
sobre tais coisa, ela exemplificou na minha cara e eu demorei tanto para
aprender.
que o tempo branqueou os meus cabelos e a vida ensinou-me algumas coisas, como
gostaria de novamente conversar com minha mãe. Eu lhe diria que ela estava
certa e eu errado; que compartilhar faz bem à alma. Que ajudar nunca tirou
pedaço de ninguém. Que o respeito é fundamental. Na verdade ela nunca me falou
sobre tais coisa, ela exemplificou na minha cara e eu demorei tanto para
aprender.
Venho
de um tempo diferente, de um Brasil onde a maioria era pobre. Onde nem sabíamos
o que era droga. De um tempo de poucos pedintes. De estudantes que levavam
reguadas das professoras e achavam isto normal. Onde as mães davam surras
homéricas e os filhos ficavam calados e obedeciam sem reclamar. Venho de um
tempo onde as pessoas quase não se abraçavam, eram tímidas e temerosas dos
próprios sentimentos. Eu adorava minha mãe, mas nunca disse à minha velhinha o
quanto a amava. Tenho certeza que de onde ela está ela sabe disso. Um beijo no
seu generoso coração, Dona Anadir … Minha mãe.
de um tempo diferente, de um Brasil onde a maioria era pobre. Onde nem sabíamos
o que era droga. De um tempo de poucos pedintes. De estudantes que levavam
reguadas das professoras e achavam isto normal. Onde as mães davam surras
homéricas e os filhos ficavam calados e obedeciam sem reclamar. Venho de um
tempo onde as pessoas quase não se abraçavam, eram tímidas e temerosas dos
próprios sentimentos. Eu adorava minha mãe, mas nunca disse à minha velhinha o
quanto a amava. Tenho certeza que de onde ela está ela sabe disso. Um beijo no
seu generoso coração, Dona Anadir … Minha mãe.
Gastão
Ferreira/2016
Ferreira/2016
Gastão Ferreira começou a publicar seus textos aos 13 anos. Reconhecido por suas crônicas e poesias premiadas, suas peças de teatro alcançaram grandes públicos. Seus textos e obras estão disponíveis online, reunidos neste blog para que todos possam desfrutar de sua vasta e premiada produção.