Histórias do bem-te-vi

         A
ventania fez um grande estrago aqui no sitio, foi apelidada de “Tonny, o
tornado”, pois arrasou com as plantações, destelhou algumas habitações, deixou
casas sem luz e água. Seu Dito Pirado propôs uma passeata, mas alguém lembrou
que contra “Tonny, o tornado” passeata nada resolve.
         Quem
sabe das novidades é o bem-te-vi, um passarinho muito bem informado. Fez
propaganda para o rei tucano, o futuro mandatário das nossas matas. Ontem,
ficou um bom tempo, contando suas histórias.
         Estava
feliz! Disse que a expulsão definitiva da jaguatirica que atacava os
galinheiros é a causa das franguinhas andarem tão desconsoladas, pois, segundo
o bem-te-vi, ser comida por uma jaguatirica era o sonho de toda a galinha velha
e mal amada.
         Pássaro
fofoqueiro, o bem-te-vi; cismou que o joão-de-barro se juntou com a coruja, e
ambos vão aprontar. Talvez seja mentira, talvez seja verdade, pois a ficha
corrida destas duas aves, tão honestas e humildes, apontam para grandes e
secretas jogadas.
         Na
cidade foi filmado um barraco; um Gavião Real invadiu o ninho de um tico-tico.
A coisa foi tão feia que até urubu veio espiar; encheu de pássaros aplaudindo a
baixaria, afinal, gavião e tico-tico se merecem. Demorou, mas aconteceu.   
         Os
novos tempos nem chegaram, mas os beija-flores estão assanhadinhos, todos querendo
participar do banquete real; são eles os eternos beija-mãos, beija-pés, uma
raça sempre atenta, e que sabe para que lado sopra o vento.
         Os
quero-queros andam quietos, nem piam, mas, continuam querendo alguma coisa.
Estão por toda a parte querendo, querendo, e desquerendo.
         As
humildes cambacicas são as que mais sofrem com a situação atual, sobra água e
falta ração. Os cavalos magros estão apavorados; bandos de urubus torcem pelo
pior. Uma anta previu o final dos tempos, e afirmou; – “Mais um tornado igual à
este, e o mundo acaba.”
         Os
biguás estão esperançosos, pescadores acostumados com a mudança dos ventos,
sabem que no futuro verão, todos verão; a volta das andorinhas, revoada de
guarás, o siri sair da toca, garças brancas nos ninhais.
         O
bem-te-vi acredita em mudanças; elas não virão à galope, primeiro colocar a
casa em ordem, acertar as contas, limpar o quintal, afastar as pragas. Tudo
isto leva um tempo, mas uma certeza ele tem; pior do que está não fica.
         O
bem-te-vi bateu asas, não contou tudo o que viu, mas passarinho esperto é
aquele que só observa, pois em briga de gavião, canarinho não se intromete.
Omisso, um cão rural.
Gastão Ferreira/2016
        

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