Histórias do vento

         Segundo
a mitologia grega, a ilha flutuante de Éolos era a morada do deus dos ventos.
Lá vivia Éolo com seus seis filhos e seis filhas; Bóreas era o vento norte,
Notos o vento sul, Zéfiro o oeste, os outros nove membros da família eram todos
os ventos do mundo. Em Pindorama aquela brisa suave que sopra ao final da tarde
é chamada de Votuporanga (vento bonito em tupi-guarani), e tida como a filha
mais bela de Ibytu, o vento.
         Estamos
tão acostumados com o vento que nem prestamos atenção aos seus diversos nomes
em português; Bóreas (o vento norte), Austro (o vento sul), Garbino (vento
sudoeste), Maestro (vento nordeste), Ponente (vento oeste) e Lestada (vento
leste).
         O
vento se manifesta de várias formas; rajada, salvante, tornado, tufão,
vendaval, viração, camacheiro, ciclone, furacão, mareiro, minuano, mistral, alísios,
mata-vacas, monção, brisa, pampeiro e muitos outros.
         Tem
vez que o vento é apenas um menino gentil; uma aragem refrescando a tarde. Por
vezes se transforma em um moleque birrento e desaparece por vários dias, dando
lugar a um calorão insuportável.
         O
menino-vento não tem residência fixa; é um sem teto brincando pelo mundo. Cheio
de não-me-toques vira tempestade num piscar de olhos. No inverno gosta de
correr, fica meses galopando entre a Patagônia e o Brasil, assobia e canta nas
cumeeiras dos ranchos e taperas sulinas, e recebe o nome de Minuano.
         Guri-vento,
no norte é Alísio e Elísios, uma hora dispara para o mar até cansar e retorna a
praia trazendo consigo restos de naufrágios, coisas perdidas nas águas
oceânicas.  
         No
Outono rodeia Iguape, dorme entre as montanhas e pela manhã faz uma breve
visita à cidade, provavelmente percorre todo o litoral, pois só reaparece à
tardinha, transformado em brisa, e fica por muitas horas soprando por sobre o
manguezal; é o famoso vento leste trazendo o frescor da noite e o clarão das
estrelas.
         O
menino-vento é muito estranho. Temperamental e selvagem, não aprecia
brincadeiras, mas adora se divertir; levanta a saia das moças, derruba velho no
chão, dança com as pipas no céu, voa com os pássaros, verga as copas das
árvores e num redemoinho se transforma em Saci; assusta as beatas e põe um
brilho misterioso no olhar das crianças.
         Tem
gente que ouve o vento, gente que sabe de muitas histórias escondidas, fatos
mal contados, coisas de encantados, visagens no meio da escuridão, gargalhadas
de feiticeiras, gênios que escaparam de lâmpadas mágicas, mulas sem cabeças,
boitatá e lobisomem. Fatos que o vento murmura, algo para se pensar. Ainda bem
que o vento não para, ninguém aprisiona o vento; a única vez que o vento foi
preso, foi na Grécia antiga, e ao ser liberto destruiu todos as naus de
Ulisses… É por isto que se diz; – “Quem semeia ventos, colhe tempestade.”
Gastão Ferreira/2016     

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