Dona Doida

                Doutor
Francisco tem um sitio aqui perto do nosso, um local para passar férias. Ele e
Dona Amélia foram assaltados inúmeras vezes, e resolveram morar em definitivo
na zona rural, ambos são aposentados. Gente finíssima, Seu Chico foi professor
universitário, e dona Amélia atriz de teatro, e das famosas. No penúltimo
assalto ela levou uma paulada na cabeça, ficou amarrada, foi torturada. O
trauma foi tão grande que ficou com sequelas, e de vez enquanto endoida, e vira
uma outra pessoa, uma personagem das muitas peças em que atuou.
         Quando
mocinha, dona Amélia representou uma cigana numa peça teatral, pois não é que a
cigana voltou! Foi na quermesse de Santa Lulinha, a protetora dos pobres, e
madrinha de nosso bairro. Realmente, o pessoal levou um susto; dona Amélia tão
chique, e sem mais nem menos, sacou a toalha da mesa, arrancou uma flor, e
colocou nos cabelos, e gritou; – Cheguei!
         Doutor
Francisco explicou a situação, pediu desculpas, contou do trauma, tentou levar
a esposa embora. Que nada! Ela disse que só saia dali depois de ler a sorte de
sete pessoas; se agarrou na mesa, e bateu o pé. Ainda bem que o pessoal do
sitio é compreensivo, e dona Cotinha se apresentou como a primeira consulente.
        
“Vejo pelas linhas de sua mão que a vida não foi nada fácil para a senhora. ”,
disse a cigana. 
        
“Não foi mesmo! Casei muito nova, meu marido morreu cedo…. Nunca mais fui feliz!
”, suspirou dona Cotinha.
        
“Calma minha amiga! A adivinha aqui sou eu, a senhora não necessita contar
nada, posso continuar? ”
         Nesta
altura dos acontecimentos, e notando que a cartomante era das boas, um monte de
curiosos se amontoaram ao lado da mesa, todos curiosos para saber dos segredos
de dona Cotinha.
        
“Realmente enviuvou um ano após o casamento, mas não noto nenhuma infelicidade!
Quinze dias depois da morte do marido já estava pulando cerca, ciscando na casa
das vizinhas, paquerando homens casados, uma vez se vestiu de fantasma e atacou
um rapazola, que quase morreu de susto…”, falou a cigana.
         O
pessoal ficou de olhos esbugalhados; então o famoso fantasma tarado era dona
Cotinha! Como era possível? Uma ovelha do Senhor! Uma perdida! Uma devassa! Seu
Dito Brocha nunca se recuperou do ataque da visagem, nem Viagra resolveu o seu
pequeno problema. E agora aparece esta cigana, uma novata na vila, e desvenda o
tenebroso mistério. Todos queriam uma consulta urgente.
         Dona
Cotinha não deixou barato, tascou a mão na cara da cigana e gritou; – “Olha
aqui Dona Doida! Quem você pensa que é para me denegrir frente ao meu povo? Eu
tenho um nome a zelar, e meu nome é Maricota, e exijo respeito, sua vaca! ”
        
“Cotinha Pula Cerca! E não me chame de vaca, sua galinha velha…”, soluçou a
cigana.
         Dona
Cotinha se enfezou; bateu com uma garrafa na cabeça da cartomante, arrancou o
vestido da mulher, puxou pelos cabelos, cuspiu na cara, deu uma rasteira, e
espatifou um vaso de flores no crânio da infeliz. A cigana desmaiou.
         Quando
Dona Amélia voltou a si, não lembrava de nada; parece que sarou de vez, a
cigana nunca mais voltou. Os devotos acham que foi mais um milagre de Santa
Lulinha, os médicos afirmam que a surra recolocou no lugar certo os nervos de
Dona Amélia… A única coisa que ficou do arranca rabo, foi o apelido que Dona
Doida colocou em Dona Cotinha; palmas para Dona Cotinha Pula Cerca.
Gastão Ferreira/2016    

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